Kátia da Silva Barbosa, 37 anos, viu sua vida mudar quando decidiu abrir um centro recreativo no bairro Los Angeles, em Campo Grande, no qual mora há oito anos. Em 2020, no auge da pandemia, ela percebeu que muitas mães que precisavam trabalhar presencialmente não tinham onde deixar os filhos.
Naquele momento, o bairro não contava com toda a infraestrutura considerada básica. A rede de esgoto, por exemplo, ainda não havia chegado. “Era água vazando, mau cheiro. Ficava difícil receber as crianças”, lembra Kátia.
Empreender em meio às dificuldades
Mesmo diante dos desafios, Kátia decidiu seguir em frente. Com uma bebê em casa e sem renda fixa, viu no centro recreativo uma forma de ajudar outras mães — e também a própria família.
“Eu tinha as minhas crianças, veio a pandemia, tudo fechou. Eu era motorista de aplicativo e não tinha mais movimento. Então, resolvi abraçar a causa para ter renda e cuidar dos meus.”
Na época, ela chegou a atender de 10 a 15 crianças entre 3 meses e 10 anos de idade.

Quando o saneamento chega, as oportunidades crescem
Com o passar dos anos, a rede de esgoto foi implantada no bairro, acompanhada de outras melhorias que trouxeram mais qualidade de vida à região — e novas possibilidades de renda para as famílias.
“Os pais gostam de chegar num lugar limpo, tranquilo, sem odor. A implantação da rede de esgoto trouxe qualidade e confiança”, relata Kátia. A melhoria atraiu mais moradores para a região e aumentou a procura pelo centro recreativo.
Hoje, o espaço atende entre 30 e 40 crianças, e a renda da família cresceu entre 15% e 20%. O marido, que também atuava como motorista de aplicativo, segue na atividade, mas passou a dedicar parte do tempo ao trabalho com Kátia.
O impacto invisível do saneamento na vida das mulheres
A história de Kátia reflete um fenômeno maior: saneamento básico é muito mais do que infraestrutura — é oportunidade. Segundo estudo do Instituto Trata Brasil, a universalização do saneamento elevaria a remuneração média das mulheres brasileiras de R$ 1.984,74 para R$ 2.105,08 por mês (valores a preços de 2019), um acréscimo anual de R$ 1.444,12 por trabalhadora.
O estudo também aponta a redução de afastamentos por doenças e o aumento da produtividade.
Autonomia, saúde e desenvolvimento
Além da renda, o saneamento gera um efeito social profundo. Com acesso à água tratada e ao esgoto, mulheres podem buscar emprego, estudar e empreender. Afinal, quando as pessoas adoecem menos, sobra mais tempo e energia para o trabalho e o cuidado com a própria trajetória — especialmente porque, em muitos lares, é a mulher quem assume o cuidado quando alguém da família fica doente.
Segundo o estudo do Trata Brasil, 18,4 milhões de brasileiras poderiam sair da pobreza com a universalização do saneamento. “Muita gente tem filho, as mães procuram nosso serviço”, diz Kátia, que hoje vê no trabalho uma forma de transformar vidas — inclusive a dela.
Histórias como a de Kátia mostram que saneamento é a base para que mulheres conquistem autonomia e para que comunidades cresçam com mais qualidade de vida. Quando o saneamento básico chega, chegam também novas possibilidades.
Texto: Chris Reis
Fotos: Acervo pessoal Kátia Barbosa
Fonte: Trata Brasil