No coração rural de Mato Grosso do Sul, a cerca de 17 km de Campo Grande, o quilombo Chácara Buritis vive uma revolução silenciosa — e fértil. Os legumes estão mais vistosos e as folhas mais verdes. Com a melhoria na qualidade, os produtos agora vão alimentar escolas e programas sociais da capital.
Por trás dessa transformação está um insumo inovador, produzido a partir do que antes era descartado em aterros sanitários: o lodo das estações de tratamento de esgoto. O produto ganhou nome e propósito: Organics Fertibio.
Trata-se de um biofertilizante rico em nutrientes, feito com 10% de lodo tratado e 90% de esterco bovino. A iniciativa, pioneira no Brasil, é fruto de uma parceria entre a Ambiental MS Pantanal (Parceria Público-Privada entre a Aegea e a Sanesul), a empresa Organics e a Agraer (Agência de Desenvolvimento Agrário e Extensão Rural), com apoio do Governo do Estado.
De passivo ambiental a ativo social, econômico e agrícola
Usar o lodo para matéria-prima de fertilizante exigiu testes e tecnologia. Os testes confirmaram que essa matéria orgânica tem a viabilidade técnica e a segurança necessárias para o uso em quaisquer sistemas de adubação. Pode ser utilizado em diversas culturas como soja, arroz, milho, hortifrútis e pastagens.
“O projeto beneficia toda uma cadeia de produção, fortalecendo a agricultura familiar e a economia circular”, explica Fernando Garayo, gerente de Meio Ambiente da Ambiental MS Pantanal. “A doação aos produtores é feita por entidades. Destinamos cerca de 10 toneladas para cada, entre assentamentos, aldeias indígenas, viveiros de mudas, entre outros projetos”, completa.
Renda que cresce na raiz
Acompanhando de perto os resultados no campo, o engenheiro agrônomo da Agraer, Arioval Diogo, explica que o impacto do biofertilizante vai além da produtividade. Ele começa onde mais pesa para o pequeno produtor: o custo.
“O biofertilizante melhora a saúde do solo e promove um crescimento vigoroso das plantas, contribuindo para uma produção agrícola mais eficiente e sustentável. A diferença visual é clara. E na renda, mais ainda.”
Com a aplicação gratuita do produto, fornecido diretamente nas propriedades, os agricultores familiares conseguem reduzir significativamente os gastos com insumos — um dos maiores entraves da produção. “A maioria dos fertilizantes químicos é importada e cara. O Organics Fertibio chega como um alívio imediato”, reforça o engenheiro.
Segundo estimativas da Agraer, o custo de produção de um pé de alface caiu de R$ 0,89 para menos de R$ 0,50. E o valor de venda pode chegar até R$ 5,00, especialmente em cultivos tecnificados.
Economia circular que chega onde precisa
Desde o início do projeto, em junho de 2024, foram geradas 1.257 toneladas de fertilizante orgânico, reaproveitando o mesmo volume de lodo que antes iria para aterros. Desse total, 20% são destinados gratuitamente a comunidades rurais em situação de vulnerabilidade — incluindo assentamentos, quilombolas e aldeias indígenas.
Só no quilombo Chácara Buritis, onde vivem 80 famílias, a produção de hortaliças mais que dobrou em alguns canteiros. Cada entrega representa cerca de dez toneladas de insumo e chega diretamente às mãos dos agricultores, por meio da Agraer, em locais como aldeias indígenas, grupos de mulheres agricultoras, viveiros de mudas e cooperativas.
Mais do que adubar canteiros, a iniciativa está cultivando oportunidades: gera renda, fortalece laços comunitários, evita o êxodo rural e posiciona Mato Grosso do Sul como referência no uso sustentável do lodo de esgoto.
Muito além do adubo: visibilidade, apoio e futuro
Mais do que hortaliças saudáveis, a chegada do biofertilizante abriu portas para um novo ciclo de tecnificação e reconhecimento. O técnico da Agraer explica que muitos produtores já acessam linhas de crédito e investem em sistemas que podem aumentar ainda mais o valor da produção.
“É um processo que começa com o solo, mas transforma toda uma cadeia produtiva. Os produtores passaram a ser vistos, ouvidos, apoiados. E a produção deles, antes limitada e invisível, agora chega às escolas, gera renda e muda o que parecia estagnado.”
Texto: Rosiney Bigattão
Fotos: Acervo Agraer e Ambiental MS Pantanal


