Imagine morar num bairro onde, além de ter esgoto tratado e água limpa, surgem novas oportunidades de trabalho. Onde o pedreiro da rua se torna operador da estação de tratamento, a mãe solo se capacita como bombeira hidráulica e o jovem da comunidade vira agente ambiental. Esse cenário já é realidade em muitas regiões do Brasil — e tende a se multiplicar com os investimentos em saneamento previstos para os próximos anos.
Nesta conversa com Christianne Dias, diretora-presidente da Associação Brasileira das Empresas de Saneamento (ABCON), mergulhamos nas águas que movem a economia para entender como o setor, além de promover saúde, também é um poderoso gerador de empregos e renda. Tem oportunidade para quem quer empreender, estudar, trabalhar perto de casa e até para quem sonha com um “emprego verde”, num segmento que passa por uma transformação digital e ambiental. Um papo com dados e exemplos que mostram: o saneamento também impulsiona a economia.
Qual é o papel do saneamento na geração de emprego e renda no Brasil hoje?
O saneamento é um setor estratégico que impulsiona o crescimento sustentável, a redução das desigualdades e a geração de empregos. O investimento na área tem alto poder multiplicador: movimenta uma cadeia extensa de fornecedores e gera oportunidades em escala. De acordo com um estudo da ABCON, a universalização do saneamento resultará em um acréscimo de R$ 1,4 trilhão no PIB do país, além da criação de 1,5 milhão de novos postos de trabalho.
Onde estão esses empregos?
Eles estão distribuídos ao longo de toda a cadeia produtiva. Na fase de implantação dos serviços, destaca-se a construção civil, responsável por quase 68% da demanda de investimentos, seguida pelos setores de tubulação, equipamentos e materiais diversos. Com isso, há geração de empregos para pedreiros, engenheiros, eletricistas, operadores de máquinas, técnicos de instalações, entre outros. Já na operação e manutenção dos sistemas, surgem vagas em áreas como química, biologia, operação de estações de tratamento, logística, atendimento comercial e muito mais.
Com a crescente preocupação com os impactos das mudanças climáticas, o setor também passa a demandar profissionais voltados à mitigação e adaptação, como especialistas em reuso de água, controle de perdas, eficiência energética, planejamento urbano resiliente, gestão de mananciais e energia renovável. Esses empregos estão cada vez mais ligados à digitalização e à sustentabilidade dos sistemas, o que amplia a gama de perfis profissionais exigidos.
Quais as profissões que o saneamento mobiliza?
A cadeia do saneamento mobiliza uma grande variedade de profissionais técnicos e especializados, como engenheiros civis, eletricistas, operadores de sistemas, especialistas em automação, geoprocessamento, qualidade da água, gestão ambiental e educação sanitária. À medida que os serviços se expandem, cresce também a demanda por profissionais nas áreas administrativa, jurídica, financeira, de tecnologia da informação e regulação.
Com a incorporação de metas ambientais e climáticas, o setor exige cada vez mais perfis voltados à sustentabilidade, como engenheiros sanitaristas e ambientais, analistas de dados, especialistas em energias renováveis, economia circular e projetos de mitigação climática. O saneamento se consolida, assim, como um campo estratégico para a geração de “empregos verdes” e qualificados.
Outro ponto crucial é a comunicação. Profissionais como jornalistas, designers e especialistas em atendimento e educação social são essenciais para construir confiança com a população, esclarecendo de forma acessível as ações das companhias de saneamento e promovendo o engajamento social em uma agenda pública que entra no cotidiano de todos.
Que tipo de oportunidades a obra de saneamento gera ao longo do tempo?
Os empregos continuam e se tornam permanentes na fase de operação e manutenção dos serviços. Diferentemente de outras grandes obras de infraestrutura, o saneamento tem forte presença territorial e prioriza a contratação de mão de obra local, tanto na fase de implantação quanto na gestão contínua do sistema.
Após a conclusão das obras, inicia-se a operação regular: captação, tratamento e distribuição de água, coleta e tratamento de esgoto, controle de perdas, monitoramento da qualidade, atendimento comercial e manutenção das redes. Como o saneamento está diretamente ligado ao funcionamento cotidiano das cidades, as operadoras costumam capacitar e contratar profissionais das próprias comunidades, que conhecem o território e contribuem para a eficiência e a continuidade dos serviços.
Trata-se de uma estrutura contínua, que requer equipes locais e qualificadas, gerando empregos estáveis e duradouros nos territórios atendidos.
Os números do setor tendem a crescer com a universalização?
Sim. Os dados do SINISA 2024 mostram que há mais de 180 mil pessoas que atuam nos serviços de água e esgoto, seja como pessoal próprio das operadoras de saneamento, seja como terceirizadas. Conforme citado anteriormente, devem ser criados cerca de 1,5 milhão de novos postos de trabalho.
Como esses investimentos ajudam a economia local e a renda das famílias?
Quando o saneamento chega a uma cidade, movimenta imediatamente a economia local. As obras geram empregos diretos, impulsionam o comércio e aumentam a arrecadação. Na operação, há contratação de mão de obra local, serviços contínuos e demanda por fornecedores regionais. A melhoria nas condições de saúde e moradia valoriza os imóveis, reduz custos públicos e privados e amplia a renda das famílias, criando um ciclo de desenvolvimento econômico e social.
O saneamento também impulsiona outros setores?
A presença de água tratada e esgoto coletado cria um ambiente mais seguro e atraente para o desenvolvimento econômico. Setores como turismo, hotelaria, alimentação e comércio local se fortalecem com a melhoria das condições sanitárias e ambientais. Indústrias ganham em previsibilidade hídrica e estabilidade regulatória. Serviços de saúde, educação e transporte se beneficiam indiretamente da redução de doenças e da melhoria da qualidade de vida. A valorização imobiliária é outro impacto relevante: imóveis em áreas saneadas tendem a se valorizar, o que incentiva investimentos habitacionais e amplia a base fiscal dos municípios.
O saneamento abre portas para quem quer trabalhar perto de casa?
Os investimentos em saneamento geram oportunidades concretas para moradores das cidades atendidas. Durante as obras, há contratação de mão de obra local para construção civil, serviços de apoio e fornecimento de materiais. Na operação, as empresas demandam operadores, técnicos, agentes comerciais e equipes administrativas, muitas vezes priorizando trabalhadores da região. Isso significa que o saneamento cria empregos perto de casa, estimula a capacitação local e fortalece os vínculos sociais e econômicos no território.
Quais as dicas para quem quer aumentar a renda e empreender?
A chegada do saneamento abre caminhos para o empreendedorismo e geração de renda. Ambientes mais saudáveis favorecem o funcionamento de pequenos comércios, serviços domésticos, salões de beleza, oficinas, entre outros. A valorização dos bairros atrai consumidores e melhora as condições para o trabalho informal se formalizar. Além disso, há espaço para cooperativas e negócios sociais voltados à educação ambiental, reaproveitamento de água, compostagem e manutenção predial. Com menos afastamentos por doenças, as famílias podem ampliar sua renda com mais membros economicamente ativos.
Como se preparar para entrar nesse mercado?
Quem busca oportunidades no setor pode se beneficiar de cursos técnicos em saneamento, eletromecânica, automação, geoprocessamento, atendimento ao público, gestão ambiental e operação de sistemas. Também são valorizadas capacitações em segurança do trabalho, tecnologia da informação e educação ambiental. Muitas operadoras e instituições locais oferecem parcerias com escolas técnicas e programas de qualificação voltados para moradores das regiões atendidas.
Que mensagem fica para quem busca renda e oportunidades no futuro?
Com a meta de universalizar o saneamento até 2033, o setor seguirá como um dos principais motores de geração de empregos no Brasil. A expansão dos serviços exigirá mão de obra qualificada em diversas áreas, movimentando a indústria, o comércio e os serviços. Para quem busca trabalho e renda, essa é uma oportunidade concreta de participar de uma transformação nacional que alia desenvolvimento econômico, inclusão social e cuidado ambiental.

Mais sobre Christianne Dias
Diretora-presidente da Associação Brasileira das Empresas de Saneamento (ABCON), foi diretora-presidente da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) e também atuou como subchefe adjunta de Infraestrutura na Subchefia de Assuntos Jurídicos da Casa Civil da Presidência da República. É mestre em direito e políticas públicas.