“Aqui é bem quente. De vez em quando, no meio do percurso do trabalho, a gente tem que parar pra tomar uma água e encontrar um banheiro. Nesse calorão, a gente até passa mal.”
O relato é de Hector de Oliveira Moreira, motoentregador em Água Clara (MS), que enfrenta as altas temperaturas nas ruas da cidade. Neste verão, Mato Grosso do Sul já registrou temperaturas acima de 38°C. Trabalhar ao ar livre deixou de ser apenas cansativo e passou a representar um risco real à saúde, especialmente para quem depende do trabalho informal para garantir renda.
Segundo o Centro de Monitoramento do Tempo e do Clima (Cemtec), as temperaturas máximas em Água Clara chegaram a 37°C em janeiro e seguem elevadas em fevereiro. Para Hector, que atua há dois anos como motoentregador, o calor intenso se soma a outro problema estrutural: a falta de acesso à água e a banheiros públicos ao longo da jornada.
Falta de banheiro: quando o trabalho vira risco à saúde
No dia a dia de trabalho, nem sempre é possível parar para se hidratar ou usar um banheiro. A consequência vai além do desconforto.
“Sempre que eu posso, dou essa pausa para buscar um banheiro. Às vezes estou longe de casa e tenho que segurar um pouco, mas já aconteceu de eu ter infecção urinária por conta disso.”
Em períodos de calor extremo, o corpo perde mais líquidos, o que aumenta a necessidade de hidratação. Quando isso não acontece de forma adequada e a pessoa evita ir ao banheiro, os riscos de infecções e mal-estar aumentam. No caso de quem trabalha nas ruas, como motoentregadores, ambulantes e diaristas, essa combinação se repete diariamente.

Calor extremo, saúde e perda de renda
No trabalho informal, adoecer significa, muitas vezes, perder o dia e a renda. Não tem atestado, folga nem substituição. Para quem depende do dia a dia nas ruas, não há margem para pausas prolongadas.
“Quando a gente passa mal no meio do caminho, tem que parar. E isso significa menos entregas e menos dinheiro”, explica Hector, ao relatar uma rotina em que o corpo é constantemente levado ao limite.
A falta de estrutura urbana, somada às ondas de calor cada vez mais frequentes, revela uma conta invisível do verão e da negligência com o saneamento básico. Uma conta que é paga — todos os dias — por trabalhadores informais.
A falta de banheiros públicos no Brasil: um para cada 100 mil habitantes
A dificuldade enfrentada por Hector não é um caso isolado. Um levantamento da QS Supplies, realizado em 2021 com base em dados da plataforma PeePlace e divulgado pelo Observatório Nacional dos Direitos à Água e ao Saneamento, mostra que o Brasil possui apenas 1.417 banheiros públicos identificados, o que representa cerca de um banheiro para cada 100 mil habitantes.
Mesmo grandes capitais enfrentam escassez. Belo Horizonte conta com apenas quatro banheiros públicos operacionais, enquanto Brasília tem poucos pontos disponíveis, como um banheiro comunitário na região central. Nas cidades do interior, a situação tende a ser ainda mais crítica.

Um desafio urbano que vai além do clima
Com as mudanças climáticas intensificando o calor em diversas regiões do país, o debate sobre saneamento básico ganha ainda mais urgência. Garantir acesso à água potável, banheiros públicos e condições mínimas de higiene não é apenas uma questão de conforto urbano, mas de saúde pública, dignidade e proteção da renda de quem vive do trabalho nas ruas.
A história de Hector expõe uma realidade que se repete silenciosamente em muitas cidades brasileiras, especialmente durante o verão: trabalhar no calor sem saneamento transforma a rotina em um risco diário.
Texto: Ray Santa Cruz
Fotos: Arquivo Pessoal Hector
Fontes: Ondas | Marco Zero | Ministério da Saúde | Forbes | Calor em MS