Água e gênero: saneamento ainda é desafio para mulheres

Água e gênero: saneamento ainda é desafio para mulheres

Para milhões de mulheres, a falta de água tratada não é apenas um problema de infraestrutura. É um obstáculo diário que afeta saúde, tempo, oportunidades e dignidade. São elas que, muitas vezes, cuidam de familiares doentes após o consumo de água contaminada, enfrentam a ausência de banheiros adequados ou precisam reorganizar a rotina da casa quando o básico não chega.

Essa realidade ajuda a explicar por que o tema do Dia Mundial da Água 2026, celebrado em 22 de março e escolhido pela Organização das Nações Unidas (ONU), é “Água e gênero”. A proposta é debater como o acesso desigual à água, ao saneamento e à higiene impacta de forma mais intensa a vida de mulheres e meninas.

Para a presidente executiva do Instituto Trata Brasil, Luana Pretto, o Brasil avançou nos últimos anos, mas ainda enfrenta desafios importantes para garantir esse direito básico.

“As maiores perspectivas de investimento no saneamento básico trouxeram principalmente para as mulheres um tipo de melhoria na vida delas. Mas ainda temos um longo caminho pela frente, principalmente nas regiões Norte e Nordeste.”

Mulheres no centro da crise da água

Segundo a ONU, a falta de acesso à água potável e à higiene nas casas afeta muito mais as mulheres do que os homens. Essa falta tem rosto, gênero e rotina. Em muitos contextos de vulnerabilidade, são elas que assumem a responsabilidade de coletar e gerenciar a água dentro de casa, o que muitas vezes envolve longas caminhadas até fontes inseguras ou contaminadas.

Além do esforço físico, o impacto aparece no tempo e nas oportunidades perdidas. É a mãe que precisa cuidar do filho doente após consumir água contaminada. É a jovem que falta à escola por não ter acesso a banheiro adequado e condições ruins de higiene no período da menstruação.

“Hoje, uma a cada quatro mulheres no Brasil não recebe diariamente água tratada em casa. A maior parte das que não têm saneamento são mulheres jovens. Isso assusta, porque são mulheres com cerca de 20 anos e que têm todo um futuro pela frente.”

São mulheres que têm menos tempo para estudar, trabalhar ou participar da vida comunitária. Dados do Instituto Trata Brasil mostram a dimensão dessa desigualdade:

  • 2,5 milhões de mulheres vivem em residências sem banheiro;
  • O acesso ao saneamento pode reduzir em mais de 60% doenças ginecológicas.

Acesso ao saneamento quebra o ciclo da pobreza

Quando o saneamento chega, mulheres ganham tempo, autonomia e melhores condições de vida. Os impactos são transformadores: segundo o levantamento, 18,4 milhões de mulheres saíram da condição de pobreza após a universalização dos serviços de saneamento em diversas regiões. Por isso, discutir água e gênero também significa discutir equidade, desenvolvimento e dignidade. 

No Dia Mundial da Água, o alerta é claro: ampliar o acesso à água tratada e à coleta e tratamento de esgoto é essencial para reduzir desigualdades e construir um futuro mais justo para mulheres e meninas.

Texto: Ray Santa Cruz
Fotos: Acervo Luana Pretto e Instituto Trata Brasil.

Fontes: Trata BrasilONU

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