Para algumas famílias, ter um banheiro dentro de casa é tão comum que passa despercebido. Para Laura Maria Vilanova, de 47 anos, esse espaço representa uma conquista que ela não esquece. Antes de ter casa própria, ela precisou lidar com a falta de um vaso sanitário e descobriu, na prática, que o básico também pode ser um sonho.
Moradora do bairro Eduardo Costa, na região da Pedra Miúda, zona sul de Teresina (PI), Laura vive hoje com o marido e a filha. Na casa própria, dois banheiros fazem parte da rotina. Mas nem sempre foi assim.
Quando o básico virou luxo
Em 2009, Laura e o marido decidiram deixar o aluguel para tentar conquistar a casa própria. Compraram um terreno em uma ocupação, mas a estrutura que encontraram estava longe de oferecer as condições necessárias para uma família.
A moradia tinha apenas um cômodo, usado para dormir e cozinhar. Não havia banheiro com vaso sanitário. Para fazer as necessidades, o casal precisou improvisar uma solução que marcou a memória de Laura.
“Ali não tinha banheiro, então, a gente tinha que fazer as necessidades em sacolas. A gente fazia, guardava as sacolas em sacos de lixo e esperava a coleta passar para dispensar. Não aguentamos essa situação, foram seis meses nessa vida. Depois voltamos para o aluguel. Olha, eu não gosto nem de lembrar, é muito humilhante. Quando a gente vive isso é que se tem a noção do quanto existe a necessidade de ter um banheiro em casa.”
Para saber mais sobre a importância do banheiro, acesse o vídeo: Os caminhos do esgoto.
O valor de um banho
Com o passar dos anos, a situação financeira da família melhorou. Veio a conquista da casa própria e, com ela, a possibilidade de contar com dois banheiros: um social e uma suíte.
A rotina, que antes era marcada por improvisos, ganhou a tranquilidade de tarefas simples. Tomar banho, usar o vaso sanitário e cuidar da higiene sem depender de soluções precárias passaram a fazer parte do cotidiano.
“Poder se banhar em um local fechado, com água vindo do chuveiro e da torneira, é maravilhoso. É dignidade. A gente vê o quanto é importante ter dentro de casa. É uma sensação tão boa, porque hoje, com dois banheiros, a gente não passa apuro. Quando um está ocupado, a gente usa o outro. Uma alegria com o básico mesmo.”
A fala de Laura revela algo que os números nem sempre conseguem transmitir: o impacto que uma estrutura adequada provoca na vida de quem já precisou viver sem ela.
No imaginário social, o banheiro pode carregar diferentes significados. É associado à higiene, à intimidade, ao conforto e, em muitos casos, ao status de uma família. Mas, para quem enfrentou a ausência desse espaço, ele representa, antes de tudo, a possibilidade de viver com dignidade.


Uma realidade que ainda existe
Laura se surpreende ao saber que, em pleno 2026, ainda existem brasileiros sem banheiro em casa. Segundo o estudo do Instituto Trata Brasil, mais de 4,4 milhões de pessoas viviam, em 2022, em moradias sem banheiro de uso exclusivo. O dado mostra que a experiência que ela viveu há quase duas décadas ainda faz parte da realidade de milhões de brasileiros.
“É horrível não ter banheiro, uma situação que é crítica. As pessoas evitam perceber, só enxerga quem quer ver.”
A ausência de um banheiro adequado não se resume à falta de conforto. Ela interfere na privacidade, na higiene e na rotina das famílias. Também expõe desigualdades que muitas vezes permanecem invisíveis para quem sempre teve esse espaço à disposição.
Do banheiro à rede de esgoto
A relação de Laura com o saneamento não termina na porta de casa. Durante alguns anos, ela também atuou como líder comunitária e acompanhou de perto questões relacionadas à infraestrutura do bairro. Hoje, com acesso a água e esgoto tratados, ela reconhece que o cuidado com o saneamento depende tanto da estrutura disponível quanto da participação dos moradores.
É nesse ponto que o banheiro se torna mais poderoso do que a própria tubulação: a rede de esgoto pode passar pela rua, mas é no interior das casas que seus benefícios ganham significado para as famílias. Laura conta que a comunidade também participa da fiscalização de ligações inadequadas e busca orientar os moradores sobre a destinação correta dos resíduos.
“Nossa rede interna já está conectada ao esgoto. E, às vezes, a gente se depara com moradores querendo colocar encanamento equivocado para fora de casa. Então, a própria comunidade já faz o seu papel, enviando para a fiscalização, porque entendemos que todos devem contribuir. Aqui praticamente todas as casas já tem o encanamento que vai para a rua, onde tem um ponto. Depois esse esgoto é coletado e enviado para a ETE.”
No fim, o que Laura comemora não é apenas ter dois banheiros. É poder viver uma rotina que, por muito tempo, esteve fora do seu alcance.
Texto: Ray Santa Cruz
Fotos: Arquivo Pessoal
Fontes: DW | Trata Brasil