“Vocês são os diamantes do SUS, pois são preciosos e eternos, como essa relação deve ser.” Foi assim que a pneumologista e pesquisadora da Fiocruz, doutora Margareth Dalcolmo, resumiu a importância dos agentes comunitários de saúde no lançamento da plataforma Saneamento Salva, realizado no Rio de Janeiro, em 15 de maio. A frase emocionou o auditório lotado de pessoas que conhecem de perto a realidade das comunidades brasileiras.

“São pessoas que entram em becos, sobem escadas, visitam casas, escutam histórias e identificam os problemas que resultam em mais doenças: água contaminada, esgoto a céu aberto, lixo acumulado, crianças adoecendo, idosos vulneráveis e famílias inteiras convivendo com doenças evitáveis.”
O encontro reuniu pesquisadores da Fiocruz, representantes da Águas do Rio e do Instituto Aegea, além de profissionais da atenção primária para discutir um tema que parece óbvio, mas ainda é negligenciado no Brasil: saneamento é saúde.
O elo entre a comunidade e a saúde pública
Se os pesquisadores trazem os dados, os agentes comunitários de saúde levam a informação para dentro das casas. Foi justamente esse reconhecimento que motivou a criação de um projeto-piloto da Águas do Rio para ampliar a conscientização sobre a importância do saneamento.
“São profissionais que estão no dia a dia dos moradores e nos ajudam a levar informações importantes para as comunidades. Apresentar o Saneamento Salva para eles vai amplificar o alcance, pois eles têm credibilidade nos territórios”, afirmou Tâmara Motta, gerente de Responsabilidade Social da Águas do Rio.

“Eu tenho 15 anos de agente comunitário e percebo que estamos enxugando gelo, pois os problemas enfrentados pelos moradores são recorrentes. Agora vamos aprender mais sobre saneamento para atuar de forma mais efetiva para mudar essa realidade”, disse William Santana Pereira, do Centro Municipal de Saúde Vila do João, na Maré (também chamada de Clínica).
Quando falta saneamento, sobra doença
A bióloga e pesquisadora Maria Fantinatti, da Fiocruz, foi direta ao explicar que não basta diagnosticar e tratar pacientes sem transformar o ambiente onde vivem.

“Estou representando a Fundação Fiocruz e fico feliz de ver esse auditório cheio nessa discussão tão necessária. É importante ter saneamento, mas ele tem que estar casado com a educação e a comunicação em saúde. Aí temos uma receita imbatível para controlar a maioria das doenças infecciosas.”
Ela fez um alerta para um problema pouco conhecido pela população: as parasitoses intestinais podem comprometer a eficácia de vacinas.
“As infecções intestinais prejudicam a resposta imunológica, reduzindo a eficácia de vacinas contra gripe, pneumonia e até tuberculose, por isso algumas pessoas vacinadas adoecem. O saneamento é pré-requisito para a efetividade das campanhas de vacinação.”
“O problema do esgoto é coletivo”
O presidente do Instituto Aegea, Édison Carlos, chamou a atenção para um dos maiores desafios brasileiros: convencer as pessoas de que saneamento não é um problema individual. “A água é um benefício individual. O tratamento do esgoto é coletivo, pois afeta toda a comunidade”, resumiu.
Édison lembrou que os números são alarmantes: há cerca de 30 milhões de brasileiros sem acesso à água tratada e aproximadamente 90 milhões sem coleta de esgoto. Os impactos aparecem em cadeia, desde o aumento das diarreias até o agravamento da pobreza. “O saneamento salva”, reforçou o dirigente, defendendo que o tema passe a ser entendido como política de saúde pública.
Muito além da tubulação
“Saneamento diz respeito à moradia digna, à água para beber, para fazer a mamadeira do bebê, para cuidar do idoso acamado”, enfatizou a doutora Margareth. Ela chamou a atenção para o impacto do lixo acumulado e para a falta de educação sanitária no aumento de doenças como dengue, chikungunya e leptospirose.
Para a médica, o enfrentamento desses desafios exige participação coletiva — e aí entra novamente o papel decisivo dos agentes comunitários. “Eles conhecem os territórios como ninguém”, afirmou.
O saneamento também combate abandono e violência
Um dos depoimentos mais emocionantes veio da agente comunitária Ana Paula Araújo, gestora da Clínica Municipal de Saúde Madre Teresa de Calcutá, na Ilha do Governador.

“O impacto do saneamento vai muito além da prevenção de doenças. O abandono social também adoece.”
Segundo Ana Paula, viver cercado por lixo e esgoto afeta a autoestima, o sentimento de pertencimento e até a saúde mental das famílias. Ela contou casos em que visitas feitas após ações educativas revelaram situações de violência psicológica e vulnerabilidade extrema dentro das comunidades. Para ela, a parceria entre unidades de saúde e iniciativas de saneamento cria uma rede de proteção social capaz de transformar esses territórios historicamente esquecidos.
Texto: Rosiney Bigattão
Fotos: Acervo Águas do Rio