Quando a rede de esgoto chega, a vida das mulheres muda

Quando a rede de esgoto chega, a vida das mulheres muda

Garantir água tratada e coleta de esgoto não significa apenas executar obras de infraestrutura. Trata-se de enfrentar desigualdades históricas que atingem principalmente mulheres moradoras de territórios socioambientalmente vulneráveis, como conta Irineis Gregório dos Santos, de 37 anos.


“Moro na periferia de Campo Grande (MS) há 30 anos e, quando não tinha rede de esgoto, minhas vendas de açaí em casa eram prejudicadas por causa do mau cheiro da fossa. Fora que eu gastava R$ 250 a cada três meses com caminhão para recolher os dejetos. Depois que chegou o esgoto, nossa vida melhorou mais de 100%.”

Saneamento: política estruturante

Para a pesquisadora da Fiocruz, Adriana Sotero, o saneamento deve ser entendido como uma política estruturante, pois sua ausência afeta desde a rotina doméstica até o acesso das mulheres ao mercado de trabalho.

“A produção de renda exige tempo de dedicação. Como culturalmente recaem sobre as mulheres as responsabilidades com a casa, a família e a alimentação, a ausência de água e esgoto tratados compromete diretamente a saúde e a qualidade de vida.”

Novas oportunidades chegaram com as redes de água e esgoto

No caso de Irineis, quando a Águas Guariroba — concessionária responsável pelos serviços de água e esgoto na capital de Mato Grosso do Sul — implantou a rede de esgoto no bairro, novas oportunidades de trabalho surgiram. Hoje, ela atua como consultora de vendas em uma loja e comercializa produtos sustentáveis em casa, provenientes de uma cooperativa da região. 

“O saneamento mudou o cenário na minha casa. Hoje podemos sair tranquilos para trabalhar fora, porque sabemos que a fossa não vai transbordar; isso ficou no passado. Com a ligação à rede de esgoto, não tem mais o mau cheiro e ainda economizamos dinheiro que era gasto com o caminhão limpa-fossa.”

Irineis conta que pretende voltar a empreender em casa no futuro, com um plano a ser executado a longo prazo. Por enquanto, prefere se dedicar ao trabalho atual e às vendas. “O saneamento só veio para melhorar.”

Gargalos históricos

Apesar de Campo Grande já ter conquistado os indicadores propostos pelo Novo Marco Legal do Saneamento — com 99% da população atendida com água tratada e 94% com coleta e tratamento de esgoto —, essa realidade ainda está distante de muitas regiões do país. Quando a infraestrutura é precária, os impactos aparecem na saúde, na renda e na dignidade. 

Saiba na reportagem a seguir por que esses gargalos históricos ainda dificultam a universalização do saneamento no Brasil.

Texto: Ray Santa Cruz

Fotos: Imagem feita por IA ChatGPT.

Fontes:  Trata BrasilHabita BrasilRede Favela SustentávelG1

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