Um rio pode ensinar muito mais do que ciências: pode ajudar crianças e jovens a compreender a relação entre saneamento, saúde pública e preservação ambiental. Essa é a proposta do Esse Rio É Meu, tecnologia social que mobiliza escolas e comunidades para conhecer, recuperar e preservar os cursos d’água de seus territórios.
A iniciativa integra o programa Cidades, Salvem Seus Rios, da organização da sociedade civil Planetapontocom, e aposta na educação interdisciplinar para transformar estudantes em agentes de mudança.
Da escola para o território
A iniciativa nasceu a partir do projeto Planetapontocom e começou a ser desenvolvida em 2020, com uma experiência-piloto no Rio Carioca, no Rio de Janeiro. A metodologia propõe visitas aos rios, pesquisas sobre as condições socioambientais e atividades que conectam diferentes disciplinas aos problemas identificados no território.
Atualmente, o programa reúne 1.815 unidades escolares, 36.416 docentes, mais de 747 mil estudantes impactados e 277 corpos hídricos trabalhados. Entre os municípios participantes estão Rio de Janeiro (1.557 escolas), São Gonçalo (122), São João de Meriti (72), Itabira (50), Japeri (37) e Queimados (37).
Educação ambiental e saneamento
Quem coordena o projeto é Silvana Selmi Dei Gontijo, ativista pela educação, pelo meio ambiente e pela cultura. Para ela, a preservação ambiental precisa fazer parte do processo de aprendizagem de forma integrada, e não como um conteúdo isolado. A conexão com o saneamento permite que os estudantes compreendam como a falta de redes de água e esgoto, o descarte inadequado de resíduos e a poluição dos rios afetam diretamente a vida das comunidades.
“O meio ambiente não pode ser tratado como algo separado do currículo escolar. Precisamos superar essa ideia de dividir a educação em caixinhas e preparar os profissionais para trabalhar de forma interdisciplinar.”
A coordenadora também chama a atenção para os desafios de ensinar em um cenário marcado pela presença das telas e pela circulação acelerada de informações. Para ela, os recursos digitais podem ser incorporados ao processo educativo, desde que os estudantes desenvolvam senso crítico para avaliar o que recebem.
“A competição com as telas é imensa, mas acredito que podemos usar os celulares como ferramentas pedagógicas. As crianças precisam aprender a questionar o que recebem, distinguir informações verdadeiras das falsas e verificar as fontes.”
Rios como compromisso coletivo
A metodologia busca estimular o protagonismo dos estudantes, a participação das comunidades e o diálogo com o poder público para reivindicar soluções ambientais. A proposta também aproxima a educação ambiental das discussões sobre o saneamento, especialmente em territórios socialmente vulneráveis, onde a precariedade dos serviços pode agravar a degradação dos rios.
Silvana destaca que a mobilização precisa envolver diferentes atores e que iniciativas com potencial de expansão podem se transformar em metodologias replicáveis, com participação voluntária.
“Conscientizar sobre o saneamento é imprescindível. Existem áreas de extrema vulnerabilidade social onde os serviços são precários, e precisamos levar essa discussão para as escolas e para os professores.”
O projeto conta com a parceria e o patrocínio da concessionária Águas do Rio e está incluído no programa Saúde Nota 10, voltado à educação ambiental. No Rio Carioca, a concessionária adotou, em 2022, uma solução emergencial de engenharia para desviar o curso poluído do rio para o Interceptor Oceânico, evitando que o esgoto lançado irregularmente chegasse diretamente à Praia do Flamengo e à Baía de Guanabara. A iniciativa integra as ações de saneamento voltadas à recuperação ambiental da região.

Texto: Ray Santa Cruz
Fotos: Arquivo Pessoal Silvana Gontijo/Esse Rio é Meu
Fontes: Águas do Rio | Esse Rio é Meu | Planeta Ponto Com