Considerado o coração hídrico do Brasil, por abrigar oito das 12 grandes bacias hidrográficas do país, o Cerrado tem um dia para lembrar sua importância: o 11 de setembro. A data foi instituída em 2003 para conscientizar a população sobre a necessidade de conservar um dos maiores biomas brasileiros. Um desafio urgente, visto que é um dos mais afetados pelos incêndios florestais e pelo desmatamento.
Além disso, falar em conservação do Cerrado é também falar de água. É pelo solo e pela vegetação do bioma que a chuva infiltra, alimenta nascentes e ajuda a abastecer rios que seguem muito além de suas fronteiras. Mas há outro caminho da água que nem sempre é lembrado. Depois de chegar às cidades, passar pelas torneiras e ser utilizada pela população, ela precisa continuar recebendo cuidados. É aí que entra o saneamento.
Em Mato Grosso do Sul, duas ações aparentemente distantes ajudam a entender essa relação. De um lado, redes e estações coletam e tratam o esgoto antes de sua devolução ao meio ambiente. De outro, sementes de árvores nativas são transformadas em mudas destinadas, entre outras iniciativas, à recuperação de áreas degradadas. São trabalhos diferentes, mas que se encontram em um mesmo objetivo: proteger os recursos hídricos.

Saneamento para proteger rios e córregos
Dos 68 municípios atendidos pela Ambiental MS Pantanal no interior de Mato Grosso do Sul, 41 têm o Cerrado como bioma predominante, de acordo com o Mapa de Biomas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Nessas cidades, cerca de 106,7 mil pessoas são atendidas por uma estrutura de saneamento que evita que o esgoto sem tratamento chegue aos rios.
Dos cerca de 104 milhões de litros de esgoto tratados diariamente pela Ambiental MS Pantanal no interior do estado, aproximadamente 85,9 milhões de litros passam pelos sistemas de coleta e tratamento de esgoto instalados nos municípios onde predomina o Cerrado. Isso contribui para reduzir a carga de poluentes que poderia alcançar córregos, rios e outros corpos d’água.

Tudo começa pequeno
O cuidado com a água não acontece apenas dentro das cidades. Às vezes, ele cabe na palma da mão. Uma semente de ipê-roxo, jenipapo, jacarandá, angico-preto ou pau-formiga pode parecer pequena diante da dimensão do Cerrado. Para o ambientalista Nereu Rios, no entanto, ela representa o começo de uma transformação que ele acompanha há anos.
Há 16 anos trabalhando no Viveiro Isaac de Oliveira, da Águas Guariroba e da Ambiental MS Pantanal, Nereu participa do processo que vai da coleta de sementes na natureza à produção das mudas que posteriormente retornam ao território. O viveiro tem capacidade para produzir cerca de 90 mil mudas por ano e já soma mais de 670 mil mudas produzidas e doadas. Parte delas é utilizada em iniciativas de recuperação ambiental.
Para quem acompanha uma muda pequena crescer e, anos depois, encontra uma área recuperada, os números ganham outra dimensão. “Ver as áreas que a gente ajudou a reflorestar florescendo a partir dessas mudas é gratificante”, conta Nereu.

Ele também encontrou uma maneira bem mais simples de explicar a relação entre árvores e recursos hídricos:
“Se não tiver árvores, não tem água.”
Parte das mudas produzidas no Viveiro Isaac de Oliveira chega a áreas degradadas por meio de parcerias com organizações que trabalham com restauração ambiental. Uma delas é o Instituto das Águas da Serra da Bodoquena (IASB), que atua há mais de duas décadas na conservação de rios, solos, vegetação nativa e biodiversidade.
As mudas são utilizadas principalmente na recuperação de áreas degradadas, incluindo Áreas de Preservação Permanente (APPs) e matas ciliares. A vegetação que cresce às margens de rios e córregos tem uma função que vai muito além de compor a paisagem. Sua recuperação auxilia na proteção do solo, na redução de processos erosivos e na conservação dos cursos d’água.
Cada espécie também pode desempenhar um papel diferente ao longo da restauração, seja ajudando a proteger o solo, atraindo animais ou favorecendo a recomposição da vegetação.
“O apoio da Ambiental MS Pantanal fortalece nossas ações, que geram impacto ambiental e social na região”, afirma Joari Vieira Ximenes, responsável técnico do IASB e agente de defesa ambiental.

A água não respeita as linhas do mapa
Nascentes alimentam córregos, que encontram rios e percorrem diferentes municípios e paisagens. O solo, a vegetação e os cursos d’água fazem parte de sistemas conectados. Por isso, aquilo que acontece em determinado ponto pode produzir efeitos muito além dos limites de uma cidade.
É nessa conexão que o tratamento de esgoto e a recuperação da vegetação se encontram. Nas cidades, coletar e tratar o esgoto ajuda a proteger a qualidade da água depois de seu uso pela população. Nas áreas em recuperação, árvores e outras espécies nativas ajudam a recompor a vegetação e a proteger solos e ambientes associados aos recursos hídricos.
Um cuidado acontece por quilômetros de tubulações e estações de tratamento. O outro pode começar com uma semente coletada no Cerrado. São caminhos diferentes, mas ligados pela mesma água. E mostram que cuidar dela não é apenas garantir que chegue limpa à torneira. É também pensar no que acontece depois que ela vai embora pelo ralo — e no território que permite que esse ciclo continue.
Texto: Daniela Venturato e Maria Clara Espindola
Edição de conteúdo: Rosiney Bigattão
Fotos: Shutterstock e arquivo da Ambiental MS Pantanal.
Fontes: Brasil de Fato