Quem mora em Manaus não precisa ir muito longe para encontrar um igarapé. Eles atravessam bairros, passam ao lado e por baixo de casas e fazem parte da paisagem e da história da cidade. Em muitos lugares, porém, também carregam as marcas de décadas de crescimento urbano sem infraestrutura suficiente.
É aí que uma coisa que normalmente fica escondida debaixo da terra se torna muito visível: o saneamento. Em Manaus, literalmente. Para chegar às casas construídas sobre palafitas, onde uma rede convencional nem sempre é possível, foi preciso tirar os canos debaixo da terra. Primeiro, vieram as redes aéreas de água, instaladas para evitar que as tubulações entrassem em contato com a água poluída dos igarapés. Depois, embaixo das casas, a concessionária implantou também uma rede aérea para coletar o esgoto que era lançado nos igarapés sem tratamento.
É uma imagem que ajuda a entender o tamanho do desafio: em vez de desaparecer sob a rua, ali o saneamento passa diante dos olhos dos moradores — inclusive sob seus pés. De um lado, água tratada chegando às casas. Do outro, esgoto sendo coletado para não chegar aos igarapés. A engenharia precisou se adaptar ao lugar. E, nesse caso, cuidar das pessoas e ajudar a recuperar os igarapés são partes da mesma solução.

Uma torneira no meio das palafitas
Gil Eanes vive no bairro Educandos há mais de 60 anos. Ali, onde a rotina acompanha a subida e a descida dos rios, mais de 1,5 mil famílias viveram por muito tempo sem acesso à água tratada. Levar o serviço até casas construídas sobre palafitas exigiu soluções adaptadas a uma geografia bem diferente daquela encontrada em bairros convencionais.
“Por muitos anos, sofremos para ter acesso à água. Quando a Águas de Manaus chegou à cidade, fez questão de entender as nossas dificuldades e criou estratégias para garantir o abastecimento. Por mais que o acesso às palafitas seja difícil, hoje cada casa tem uma tubulação que leva água tratada até a torneira de cada morador. Quando se cuida das pessoas que moram aqui, também se está cuidando de todo o ecossistema.”
A frase ajuda a entender uma relação que nem sempre é óbvia. Cuidar de um igarapé também começa dentro das casas que existem ao redor dele.

O outro lado da mudança: para onde vai o esgoto?
Garantir água limpa resolve uma parte do problema. A outra começa depois que essa água é usada. Banho, descarga, louça, roupa: toda essa água precisa ter um destino. Sem rede coletora, o esgoto pode acabar no solo, em valas ou diretamente nos cursos d’água. Com coleta e tratamento, esse caminho muda.
Hoje, mais de 40% de Manaus já tem acesso ao serviço de esgoto. A expansão vem chegando também às comunidades situadas às margens dos igarapés, onde instalar redes exige soluções diferentes das utilizadas em ruas convencionais.
Nas áreas de palafitas, a rede aérea de esgoto instalada sob as casas permite coletar o que antes poderia seguir diretamente para o ambiente. O esgoto entra na rede e passa a ter um destino adequado: o tratamento. É uma mudança quase invisível quando se olha apenas para a água do igarapé, mas que começa justamente ali, em cada casa conectada.

Onde o saneamento precisa caber no beco
Outro exemplo está no Beco São Vicente, no bairro Redenção, zona oeste da cidade. O local fica em uma área conhecida como rip-rap. O nome é dado às estruturas de contenção construídas às margens dos igarapés para reduzir processos de erosão e, em Manaus, também passou a identificar comunidades formadas ao redor dessas áreas.
São lugares de relevo acidentado, becos estreitos e acesso difícil. Justamente onde a ausência histórica de infraestrutura deixou o esgoto muito perto das casas — e dos igarapés. O Beco São Vicente começou a receber um sistema de esgotamento sanitário adaptado a essa realidade.

“Diminuiu o mau cheiro e a presença de bichos”
A artesã Lilian Gonçalves de Moraes mora no bairro Redenção há 40 anos e participa de um projeto no Beco São Vicente. Ela viu as mudanças acontecerem no cotidiano.
“Antes, aqui era um emaranhado de canos. Depois que chegou a água regularizada, ficou melhor e não tivemos mais problemas para ter água limpa em casa. Agora, com a chegada do saneamento e dos tubos de esgoto, melhorou mais ainda. Diminuiu o mau cheiro e a presença de bichos.”
A transformação percebida por Lilian dentro do beco tem uma dimensão maior. Cada imóvel conectado à rede significa esgoto que ganha um destino adequado em vez de seguir sem tratamento para o ambiente. Quanto mais casas entram nesse caminho, menor a pressão sobre os igarapés. Por isso, para ela, o próximo passo é fazer essa mudança chegar mais longe.
“Agora esperamos que essa estrutura também chegue aos outros becos e que as pessoas entendam a importância de se conectar à rede para contribuir com a melhoria dos igarapés. Todos nós somos responsáveis por essa mudança, desde o uso correto da água e o descarte adequado do esgoto até o cuidado para não jogar lixo nos igarapés.”
Recuperar um igarapé começa antes de chegar à água
A moradora tem razão e talvez esteja aí uma das imagens mais interessantes dessa transformação: para recuperar um igarapé, não basta olhar para a água que corre por ele. É preciso olhar para o que acontece antes dela chegar ali: para a casa que passa a receber água tratada, para o cano que deixa de ficar mergulhado em água contaminada, para a rede de esgoto instalada sob as palafitas, para o esgoto sem tratamento que ia direto para o igarapé e agora segue para tratamento.
A Amazônia não está apenas na floresta distante das cidades. Ela também corre entre — e sob — as casas de Manaus. E cada vez que o esgoto deixa de chegar a um igarapé, um pedaço dessa Amazônia começa a respirar melhor.
Texto: Dani Brito e Rosiney Bigattão
Fotos: Águas de Manaus
Fontes: Águas de Manaus