O acesso à água segura deixou de ser um desafio diário para estudantes e professores de 25 escolas rurais e ribeirinhas de Barcarena, no Pará. Com a conclusão do projeto Água, Saneamento e Higiene na Escola, promovido pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância, UNICEF, e implementado pelo Instituto Peabiru, essas unidades de ensino passaram a contar com abastecimento adequado, estruturas sanitárias e ações educativas voltadas à saúde e ao bem-estar.
Iniciado em 2025, o projeto beneficiou diretamente mais de 1,7 mil alunos de escolas localizadas em áreas rurais e em regiões insulares, algumas de difícil acesso.

Educação e sustentabilidade caminham juntas
A iniciativa combinou investimentos em infraestrutura com ações educativas, como a formação de professores e gestores para que pudessem realizar um autodiagnóstico das condições e elaborar propostas de melhorias. A jornada mobilizou a comunidade escolar, permitiu a adaptação das necessidades às diferentes realidades do território e fortaleceu a autonomia das escolas para a continuidade do que foi implementado.
As unidades de ensino receberam o reconhecimento “Escola Três Estrelas”, metodologia internacional do UNICEF que avalia avanços em água, saneamento e higiene no ambiente escolar. Entre os critérios considerados estão o acesso à água segura, a existência de banheiros adequados, a promoção de práticas de higiene e a gestão sustentável desses serviços.
Acesso ao saneamento muda rotina nas escolas
A falta de água potável fazia parte do cotidiano de algumas escolas beneficiadas pelo projeto, especialmente em áreas ribeirinhas. A professora Lívia Vieira da Silva, da Escola Municipal de Educação Infantil e Ensino Fundamental Jupariquara, foi uma verdadeira transformação.

“Buscávamos água em baldes no porto. Depois, era preciso esperar o barro decantar para conseguir usar. Era um processo demorado e limitado.”
Esse cenário ainda reflete a realidade. Dados do Censo Escolar de 2024 para 2025 revelam que, no Pará, 1.879 escolas apresentam acesso inadequado à água, impactando aproximadamente 142 mil alunos.
Com as intervenções do projeto, essa realidade começou a mudar em Barcarena. Sistemas de captação, tratamento e distribuição passaram a garantir água limpa diretamente nas torneiras, impactando a rotina escolar e a saúde dos estudantes.

Infraestrutura e dignidade no ambiente escolar
As melhorias incluíram sistemas de captação de água (como captação de água da chuva e de fontes superficiais) até intervenções em reservação, distribuição e tratamento, com a instalação de cloradores para garantir água potável. Também foram realizados aprimoramentos em sistemas de coleta e tratamento de esgoto, além da construção e reestruturação de banheiros e instalação de bebedouros e estações de lavagem de mãos. Para a professora Célia Regina Barros Ferreira, da Escola Municipal de Educação Infantil e Ensino Fundamental São Francisco, o avanço foi significativo.

“Hoje temos água encanada de qualidade. Antes, tudo era manual. Agora, a escola funciona com muito mais dignidade.”
Além da água tratada, as adaptações nos espaços escolares contribuíram para mais autonomia das crianças. Oficinas e atividades educativas estimulam práticas de higiene, com oficinas de lavagem das mãos e de dignidade menstrual, cuidado com o meio ambiente e uso consciente da água. O diretor Eduardo Santos, da Escola Municipal de Educação Infantil e Ensino Fundamental Tia Zita, destaca a importância do aprendizado.
“Agora a gente tem a certeza que está oferecendo água de qualidade. As crianças passaram a ter acesso a bebedouros e banheiros adaptados. Isso trouxe mais segurança e estimulou hábitos de higiene no dia a dia.”
O projeto também promoveu mudanças de comportamento dentro e fora das escolas. A professora Solange Assis, da Escola Municipal de Educação Infantil e Ensino Fundamental Aicarau, observa que os efeitos chegaram à comunidade.

“Conscientizamos os moradores sobre o descarte correto do lixo e o cuidado com o rio. Ver as crianças mais saudáveis é um resultado que não tem preço.”

Impacto vai além da estrutura
A iniciativa mostra que soluções adaptadas às realidades locais, aliadas ao engajamento das comunidades, podem gerar impactos duradouros — especialmente em regiões onde o tratamento da água e o saneamento ainda é um desafio. Para a chefe do escritório do UNICEF no Pará, Mariana Machado Rocha, fica evidente o potencial de transformação quando diferentes atores atuam juntos.
“Barcarena é uma cidade com forte presença econômica e social e que tem se destacado como modelo para outros municípios da região. Apesar de avanços, há desafios no atendimento da população rural e nas ilhas, o que impacta o acesso a direitos fundamentais de crianças e adolescentes. O UNICEF está comprometido em apoiar governos, sociedade civil e setor privado para que possamos transformar essa realidade.”
Gregory Bulit, chefe do Programa de Água, Saneamento e Higiene, Clima, Meio Ambiente e Desastres do UNICEF no Brasil, fala do legado que fica com o projeto.
“Concluímos o processo para a garantia de direito das crianças, nesse caso o direito à educação em um lugar saudável e seguro. Sem água, sem banheiro e condições não tem como aprender. As condições de água, saneamento e higiene são determinantes de uma educação de qualidade para meninas e meninos”.

O presidente do Instituto Aegea, Édison Carlos, reforçou o impacto direto no futuro dos jovens.
“Sabemos o quanto faz diferença quando as pessoas passam a ter acesso a uma água tratada e ao esgoto coletado e tratado. Muda a vida para melhor, principalmente nas escolas, ao assegurar um ambiente mais seguro para professores e estudantes aprenderem melhor e isso acompanhará crianças e adolescentes por toda a vida.”
Mais sobre o projeto Água, Saneamento e Higiene na Escola
O projeto foi desenvolvido em parceria com o Instituto Aegea e contou com apoio da Prefeitura de Barcarena, por meio da Secretaria Municipal de Educação, e do Governo do Estado do Pará, via Secretaria Estadual de Educação. As melhorias implementadas reforçam o saneamento como base essencial para a aprendizagem, a saúde e a dignidade nas comunidades escolares.
Texto: Isabella Martins e Ray Santa Cruz.
Fotos: ASCOM Prefeitura Municipal de Barcarena
Fontes: UNICEF | Prefeitura Barcarena | Aegea