Ela tinha apenas 15 anos quando decidiu que não aceitaria mais a seca como destino. Enquanto muitos adolescentes ainda escolhem a profissão, Anna Luísa Beserra já estava dentro de um problema histórico do Brasil: a falta de água tratada nas zonas rurais. Baiana, apaixonada por ciência e formada em Biotecnologia pela Universidade Federal da Bahia, Anna é fundadora da startup social Sustainable Development & Water for All (SDW). Hoje, aos 28 anos, soma 13 anos de atuação, mais de 2,8 mil tecnologias implantadas e cerca de 46 mil pessoas beneficiadas.
Mas a história começa bem antes.
“Eu li Vidas Secas e me perguntei como um livro de quase 100 anos ainda retratava a realidade de tantas famílias. Estamos no século XXI e ainda tem gente sem água tratada.”
Foi ali que nasceu a indignação — combustível que move seu trabalho até hoje.

A invenção que nasceu da internet e da inquietação
Sem laboratório, sem dinheiro e sem equipe. Apenas curiosidade e conexão à internet. Pesquisando soluções simples, Anna encontrou o método SODIS — desinfecção solar da água com garrafas PET. Funcionava, mas tinha limitações: pouco volume, tempo longo de exposição e risco químico a longo prazo.
Ela decidiu melhorar. Criou o Aqualuz, um equipamento que trata a água de cisternas e utiliza radiação ultravioleta do sol para eliminar vírus e bactérias da água — sem produtos químicos, sem energia elétrica.
“Em humanos, a radiação ultravioleta pode causar câncer de pele. Mas, para vírus e bactérias, ela é letal. A gente usa essa mesma radiação para tornar a água tratada.”
O que antes levava até 48 horas, passou a levar, em média, 4 horas.
O que tratava 2 litros, passou a tratar volumes maiores.
E o que era improviso virou tecnologia validada por universidades federais.

Ser jovem, mulher e cientista no sertão
Convencer as famílias não foi simples. Muito menos sendo uma adolescente.
“As pessoas tinham descrença sobre o poder do sol no tratamento da água. E quando eu, uma menina, batia na porta dizendo que aquilo funcionava, acreditavam menos ainda.”
A solução foi investir em algo tão importante quanto a tecnologia: educação. A equipe não apenas instala os equipamentos, mas também capacita as famílias e explica o impacto da água contaminada no desenvolvimento cognitivo das crianças, na renda futura e na saúde das mulheres. Porque, quando falta água tratada, quem sente primeiro são as mulheres.
São mães que faltam ao trabalho porque os filhos adoecem.
São mulheres da periferia que acumulam cuidado, renda e doença.
São chefes de família que carregam latas, baldes e responsabilidades.
Água limpa não é só saúde. É autonomia.

Do semiárido para a ONU
O impacto ultrapassou fronteiras. Anna se tornou a primeira brasileira a vencer o Prêmio Jovens Campeões da Terra, da ONU. Também foi reconhecida pela Forbes Under 30 e acumula mais de 35 prêmios nacionais e internacionais.
Mas, para ela, o maior reconhecimento continua sendo outro.
“Minha maior indignação é viver em um mundo altamente tecnológico e ainda existirem milhões de pessoas sem acesso a algo tão básico quanto a água.”
Hoje, a SDW atua principalmente no Nordeste — com forte presença na Bahia (cerca de 36 municípios) — além do Ceará, Minas Gerais, Sudeste e Sul do país. Empresas financiam os projetos como investimento social, gerando impacto real e retorno mensurável.
Segundo dados da própria organização, a metodologia desenvolvida pela startup pode gerar até R$ 27 de retorno social para cada R$ 1 investido.
O novo passo é sempre o mesmo: democratizar o acesso à água tratada
Em 2026, Anna amplia o alcance do seu trabalho com a nova campanha Águas Tradicionais, voltada para comunidades quilombolas e indígenas da Bahia. A meta continua a mesma da adolescente de 15 anos: “Democratizar o acesso à água.”
E provar que ciência, quando encontra propósito, muda destinos inteiros.
Quer saber mais sobre o trabalho dela? Leia a entrevista.
Texto: Rosiney Bigattão
Fotos: Arquivo Anna Luísa Beserra
Fontes: Unesco: jovem cientista | Jovem baiana é premiada | Startup SDW