Falar de saúde pública no Brasil ainda costuma remeter a hospitais cheios e filas por atendimento, mas uma parte importante dessa conta começa muito antes — dentro de casa, com acesso à água tratada e à rede de esgoto.
“Para cada unidade monetária gasta com saneamento, quatro são economizadas com saúde. Os ganhos nesse setor decorrentes do investimento em saneamento são unanimidade em todo o mundo, especialmente em países desenvolvidos.”
A afirmação é do pesquisador Renato Castiglia Feitosa, do Departamento de Saneamento e Saúde Ambiental (DSSA) da ENSP/Fiocruz, que destaca o impacto direto desses investimentos na saúde pública. Ele reforça que os dados acima são da Organização Mundial da Saúde (2012).

“O investimento evita gastos com a remediação de doenças de veiculação hídrica e libera recursos para outras áreas da saúde, incluindo pesquisa e desenvolvimento de novas tecnologias.”
Conforme estudo do Instituto Trata Brasil publicado em 2025, em 2024 o país registrou 344,4 mil internações por doenças relacionadas ao saneamento inadequado, gerando um custo de R$ 174,3 milhões ao SUS. O valor evidencia o peso de enfermidades evitáveis no sistema público de saúde.
Uma conta que poderia ser menor
Segundo os dados, o custo médio por internação foi de R$ 506,07. Esse valor, multiplicado pelo volume de casos, mostra como a ausência de saneamento pressiona diretamente os cofres públicos.
Grande parte desses gastos está ligada a doenças transmitidas por vetores, como dengue e malária, que responderam por 48,9% dos custos (R$ 85,2 milhões). Já doenças de transmissão feco-oral, como diarreia e hepatite A, representaram 44% (R$ 76,7 milhões).
O papel esquecido da prevenção
A atenção básica, aliada ao saneamento, poderia mudar esse cenário. Segundo outro estudo do Instituto Trata Brasil (2025), a universalização dos serviços de água e esgoto tem potencial para evitar 86.760 internações por ano.
Na prática, isso representaria para o SUS uma economia anual de quase R$ 50 milhões, valor que poderia ser direcionado para outras áreas prioritárias da saúde.
Mais do que aliviar hospitais, o saneamento atua na origem do problema: evita que a doença aconteça.
Um investimento que reduz custos e salva vidas
Os efeitos vão além do curto prazo. Mantida essa redução ao longo dos anos, o país poderá acumular uma economia de bilhões em despesas hospitalares.
Reforçar a integração entre o saneamento e a atenção básica é uma estratégia eficiente para economizar e garantir qualidade de vida à população.
Para o pesquisador, a lógica é simples: onde há saneamento, há menos doença. E, onde há menos doença, há menor pressão sobre o sistema de saúde.
Texto: Ray Santa Cruz
Fotos: Imagem feita por IA e acervo pesquisador Renato Castiglia Feitosa.
Fontes: Estudo Trata Brasil – Trata Brasil – OMS