Doenças associadas à contaminação da água por fezes e urina de animais ainda fazem vítimas em diversas regiões do país. A ausência de coleta e tratamento de esgoto, somada ao acesso limitado à água tratada, cria condições ideais para a circulação de patógenos conhecidos e amplamente estudados.
Em muitas cidades brasileiras, parte da população depende de água de poço ou de fontes sem garantia de qualidade. A exposição cotidiana a esses riscos recai principalmente sobre populações mais pobres, que convivem com ameaças invisíveis, mas potencialmente letais.
O que a ciência já sabe — e o Brasil insiste em ignorar
Para o pesquisador Sinval Pinto Brandão, doutor em saúde pública e especialista em doenças tropicais da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz Pernambuco), a persistência dessas enfermidades revela um problema estrutural que atravessa gerações.
“Enquanto o saneamento não for tratado como prioridade básica, o país seguirá convivendo com doenças que poderiam ser evitadas.”
Embora tenha havido redução dos casos mais graves de algumas doenças ao longo das últimas décadas, a esquistossomose ainda persiste em áreas endêmicas do Nordeste. Já a leptospirose apresenta aumento significativo durante períodos de chuvas intensas e alagamentos, sobretudo em grandes centros urbanos.
Chuvas, alagamentos e risco ampliado
Durante o verão, o cenário se agrava. As chuvas intensas aumentam o contato da população com água contaminada e ampliam a circulação de patógenos. A leptospirose é um exemplo emblemático: a bactéria eliminada pela urina de roedores sobrevive na água da chuva e encontra nos alagamentos um meio eficaz de transmissão.
Segundo Sinval Pinto Brandão, ações paliativas, como o controle de vetores, ajudam a reduzir os casos, mas não interrompem o ciclo de transmissão. “O problema central continua sendo estrutural”, afirma.
O básico que salva vidas
Em locais sem acesso à água tratada, medidas simples continuam sendo fundamentais. A fervura da água segue como a forma mais segura de eliminar bactérias, vírus e parasitas quando não há certeza sobre a potabilidade.
Destaque: ferver a água é essencial não apenas para beber, mas também para cozinhar e higienizar alimentos.
Saneamento é política pública, não obra invisível
Após mais de quatro décadas dedicadas ao estudo de doenças tropicais, o pesquisador avalia que a permanência dessas enfermidades está ligada à baixa prioridade histórica dada ao saneamento. Obras subterrâneas, pouco visíveis, raramente figuram entre as prioridades de investimento, apesar de seu impacto direto na saúde da população.
O avanço da cobertura de saneamento, impulsionado por mudanças recentes no marco regulatório, pode alterar esse cenário nos próximos anos. Ainda assim, especialistas reforçam que o enfrentamento das doenças evitáveis exige investimentos contínuos, planejamento urbano e educação sanitária, especialmente em áreas mais vulneráveis.
Um consenso científico
Para Sinval Pinto Brandão, a conclusão é direta:
“Água potável e esgoto tratado são tão importantes quanto a comida. Saneamento salva.”
Texto: Rosiney Bigattão
Fotos: Shutterstock
Fontes: Monitoramento das arboviroses | Associação Paulista de Medicina