Ginecologista reforça: saneamento protege o bebê ainda na gestação

Ginecologista reforça: saneamento protege o bebê ainda na gestação

A gestação é um período de cuidado intensificado — mas, para milhões de brasileiras, o saneamento adequado ainda não está garantido. E essa ausência silenciosa pode representar riscos concretos para a saúde da mãe e do bebê.

Infecções, internações e até complicações permanentes poderiam ser evitadas com a água tratada e acesso a rede de esgoto.

“O saneamento básico é uma medida essencial e uma das mais eficazes de prevenção em saúde materno-infantil. Ao reduzir a exposição da gestante a agentes infecciosos, ele diminui significativamente o risco de infecções durante a gravidez, refletindo em menos internações e menor necessidade de cuidados intensivos”, explica a ginecologista Dra. Daniela Bertoncelo, especialista em Reprodução Humana Assistida.

Doenças evitáveis e riscos reais na gestação

Conforme Daniela, a relação entre saneamento precário e complicações na gravidez é evidente.

“Entre as principais complicações estão infecções urinárias, gastrointestinais e parasitárias, além de doenças como toxoplasmose, hepatites A e E e leptospirose”.

Essas condições podem evoluir para quadros mais graves, como desidratação, intercorrências obstétricas e parto prematuro. Em alguns casos, há ainda o risco de doenças congênitas, que podem acompanhar a criança ao longo da vida.

A vulnerabilidade não se limita ao corpo da gestante. Quando há infecção, o bebê pode sofrer diretamente com a redução de nutrientes e oxigênio, fundamentais para o desenvolvimento intrauterino.

Dados reforçam impacto na saúde das gestantes

De acordo com o estudo “Futuro em risco: efeitos da falta de saneamento na vida de grávidas, crianças e adolescentes”, do Instituto Trata Brasil (2024), 577,7 mil mulheres estavam grávidas no Brasil na época da Pesquisa Nacional de Saúde de 2019.

Dessas, 71,4 mil (12,4%) precisaram se afastar de suas atividades por problemas de saúde.

Entre os afastamentos: 2,2% (1,6 mil) foram por doenças de veiculação hídrica e 8,5% (6.096 casos) tiveram relação direta com doenças associadas à falta de saneamento básico.

O estudo confirma o que a especialista diz: a ausência de saneamento aumenta a probabilidade de diarreias e doenças respiratórias — fatores que elevam o risco para mães e bebês durante a gestação e podem gerar impactos nos primeiros anos de vida. A exposição a ambientes sem saneamento não termina na gestação — ela começa ali.

Saneamento é proteção antes mesmo do nascimento

“Uma gestação em um ambiente mais seguro e com menor carga de doenças favorece o desenvolvimento adequado do bebê ainda no útero. Isso impacta diretamente o nascimento e a saúde ao longo da vida, reduzindo prejuízos físicos e cognitivos”, ressalta a médica.

Ela reforça que o tema vai além da infraestrutura e se conecta diretamente ao futuro das próximas gerações:

“Ou seja, investir em saneamento básico é também investir no futuro dessa criança antes mesmo do nascimento.”

Texto: Ray Santa Cruz

Fotos: Acervo Dra. Daniela Bertoncelo.

Fontes: Estudo Trata BrasilAnna Luísa Beserra

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