A falta de saneamento básico no Brasil não atinge homens e mulheres da mesma forma. Quando a água potável não chega às casas e o esgoto não é coletado e tratado, os impactos recaem de maneira mais intensa sobre as mulheres — especialmente negras e moradoras de territórios vulneráveis.
Para a pesquisadora Adriana Sotero, da Fiocruz, avançar na universalização do saneamento significa enfrentar desigualdades históricas. Segundo ela, se o Brasil avançasse de forma contínua nessa agenda, o país poderia promover transformações estruturais capazes de reduzir significativamente a pobreza feminina nos próximos anos.
“Os avanços no saneamento resultariam na redução das disparidades socioeconômicas entre homens e mulheres, na melhoria nas condições de saúde e na diminuição da pobreza entre as mulheres negras, principalmente.”
Saneamento e desigualdade de gênero
A deficiência na infraestrutura de saneamento aprofunda as desigualdades de gênero. Ao longo de toda a vida — da infância à velhice — as mulheres sentem de forma mais intensa os efeitos da ausência desses serviços.
Sem água segura e sem coleta e tratamento adequados de esgoto, ficam comprometidos a saúde, a permanência na escola, as oportunidades de trabalho e a qualidade de vida, reforçando um ciclo contínuo de vulnerabilidade e pobreza.
Conforme o Instituto Trata Brasil, com o saneamento universalizado, três em cada quatro mulheres pardas ou negras poderiam sair da linha da pobreza. Atualmente, cerca de 18 milhões de mulheres vivem nessa condição, e 15,8 milhões ainda não têm acesso à água tratada.
Menos acesso, menor salário
Os números ajudam a dimensionar o problema. De acordo com dados da PNADC 2019, do IBGE, mulheres que vivem em moradias sem acesso à água tratada recebem, em média, 45,1% menos do que aquelas com abastecimento regular. Entre as que não têm coleta de esgoto, a renda é 34,4% inferior.
A desigualdade também tem recorte racial: 68% das mulheres sem acesso regular à água tratada se autodeclaram pretas ou pardas e vivem em territórios socioambientalmente vulneráveis.
Caminhos para romper o ciclo da desigualdade
A pesquisadora reforça que políticas de valorização e proteção de mulheres negras são fundamentais para reduzir desigualdades históricas.
“Exemplos das políticas são ações afirmativas, políticas de saúde integral e inclusão econômica — como o Bolsa Família, com foco em mulheres negras —, cotas em concursos, editais de empreendedorismo e a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra”, explica.

Ainda segundo Adriana Sotero, o saneamento é uma política estruturante porque reduz problemas ao longo da vida da mulher e ajuda a diminuir a sobrecarga feminina.
“As mulheres são as que mais sofrem com a ausência de políticas de saneamento, pois culturalmente recaem sobre elas as responsabilidades domésticas relacionadas à higienização da casa e à alimentação da família. Além disso, demandam mais cuidados ginecológicos, já que seu aparelho reprodutor é mais exposto às condições sanitárias adversas.”
Quando a infraestrutura é deficitária, o impacto se reflete na saúde, na segurança sanitária e na renda. O tempo dedicado às tarefas domésticas aumenta, o afastamento do trabalho se torna mais frequente e as oportunidades diminuem.
Sem água tratada e serviços de esgoto, a desigualdade se reproduz dentro das próprias casas.
“Quando o saneamento é deficitário, elas são as mais afetadas. Isso impacta a saúde e a autonomia financeira, pois gastam mais tempo com afazeres domésticos, o que interfere no trabalho e no tempo de lazer. Por isso, o peso da falta de saneamento é diferente dependendo do gênero”, afirma.
Para a pesquisadora, universalizar o acesso ao saneamento, portanto, não é apenas ampliar redes de abastecimento. É enfrentar disparidades de gênero e raça que historicamente limitam o desenvolvimento de milhões de mulheres brasileiras.
Texto: Ray Santa Cruz
Fotos: Acervo Adriana Sotero, Envato e IA por ChatGPT (foto da home).
Fontes: Trata Brasil – G1 – IBGE – Águas do Rio – Estudos Trata Brasil