Economia do cuidado: falta de saneamento aumenta o trabalho das mulheres

Economia do cuidado: falta de saneamento aumenta o trabalho das mulheres

Quando falta água tratada, sobra trabalho e falta tempo para as mulheres. Pesquisas mostram que, no Brasil, a divisão do cuidado ainda é desigual. De acordo com o IBGE, mulheres dedicam, em média, 20,7 horas semanais aos cuidados pessoais e aos afazeres domésticos. Os homens, por sua vez, dedicam 10,9 horas. A diferença ajuda a explicar por que a ausência de saneamento pesa mais sobre elas.

Para a pesquisadora Adriana Sotero, da Fiocruz, a infraestrutura básica é determinante para reduzir essa sobrecarga:

“A produção de renda laboral requer tempo para dedicação. Como culturalmente recaem sobre as mulheres as responsabilidades com a higienização da casa, da família e da alimentação, a ausência de saneamento compromete diretamente a qualidade de vida e a saúde.”

Cozinhar, lavar roupa, limpar a casa e cuidar dos filhos dependem de água regular e de destino adequado para os resíduos. Quando esses serviços não chegam às casas, o esforço aumenta.

Mais tempo gasto, menos renda

Segundo estudo do Instituto Trata Brasil, mulheres que vivem em moradias sem acesso à água tratada recebem, em média, 45,1% menos do que aquelas com abastecimento regular. A ausência de banheiro pode reduzir a renda em até 77,6%.

Para Adriana, a relação é direta:

“A escassez dos serviços de saneamento resulta em maior dificuldade e tempo despendido para tarefas básicas. Isso envolve buscar água longe de casa, comprar caminhão-pipa ou destinar resíduos em locais distantes. A carga de trabalho doméstico recai de forma desproporcional sobre as mulheres.”

Se forem negras e viverem em territórios socioambientalmente vulneráveis, o impacto é ainda mais severo. O IBGE também indica que mulheres que se declaram pretas têm a maior taxa de realização de afazeres domésticos, com 92,7%.

A economia do cuidado também começa na torneira. Sem água tratada e esgotamento sanitário, o tempo feminino é consumido pela sobrevivência cotidiana. E tempo, nesse contexto, significa renda, descanso e oportunidade.

Texto: Ray Santa Cruz

Foto: Imagem criada por IA

Fontes: IBGE Trata Brasil

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