Enchentes: quando a água baixa, o risco da leptospirose permanece

Enchentes: quando a água baixa, o risco da leptospirose permanece

Diversas cidades brasileiras enfrentam enchentes intensas provocadas por chuvas torrenciais de verão. No Rio de Janeiro (RJ), a capital entrou em Estágio 3, de atenção a enchentes e alagamentos, após diversas ocorrências que impactaram o município.

Em Mato Grosso do Sul, municípios como Corguinho, Coxim, Aquidauana e Rio Negro registraram alagamentos, pontes destruídas e mais de 700 pessoas isoladas. 

Veja o relato de Adilson Almeida, dono de um pesqueiro em Aquidauana (MS): 

“Os moradores ficaram bastante assustados com a força da água. O Rio Aquidauana encheu de uma vez, alagou tudo, aí mistura água de esgoto, fossa, lago e todo mundo fica com receio daquela doença do rato. O jeito é evitar pisar na água e nesses trajetos que sempre ficam embaixo d’água.” 

Leptospirose: um dos riscos trazidos pelas enchentes

Adilson está certo ao evitar o contato com a água. A leptospirose é uma doença bacteriana transmitida pela urina de animais infectados, principalmente ratos, em contato com água ou solo contaminados. Embora muitas vezes seja difícil evitar a exposição em áreas alagadas, a população deve adotar medidas preventivas para reduzir o risco de infecção pela bactéria Leptospira.

Em MS, a ponte sobre o Rio Taboco foi levada pela força da água durante temporal.

Impacto do saneamento inadequado

A ausência de saneamento básico agrava os riscos sanitários. Em locais com esgoto a céu aberto, os dejetos se misturam à água das enchentes, ampliando a circulação de microrganismos e favorecendo doenças como hepatite A e diarreias.

De acordo com o Instituto Trata Brasil, mais de 90 milhões de brasileiros não têm acesso à rede de esgoto. Essa deficiência pode elevar em até 40% as internações por doenças de veiculação hídrica em regiões mais vulneráveis.

Por outro lado, há quem não sofra mais com esse problema. Luciana Santos, moradora de Belford Roxo, na Baixada Fluminense, cita que houve investimentos em infraestrutura em algumas regiões do Rio e, mesmo com as fortes chuvas dos últimos dias, alguns lugares não sofreram alagamentos.

“Os arredores do Vale do Ipê e do Lote XV, que costumavam ter problemas com enchentes, não foram atingidos dessa vez. Acredito que o sistema de bombas e dragagem tenha sido restaurado e funcionado”, diz. 

Dados recentes de casos e internações

Conforme mapa do Ministério da Saúde, o Brasil registrou 4.142 casos confirmados de leptospirose em 2024, com 362 óbitos. No Rio Grande do Sul, estado afetado por enchentes recordes, os casos aumentaram 19%, totalizando 1.308 registros e 52 mortes. Hospitais relataram altas taxas de internação (entre 81% e 100% dos casos graves), especialmente por insuficiência renal. Em 2025, houve queda para 326 casos e 20 mortes no estado.

Em São Paulo, foram registrados 383 casos e 57 óbitos em 2025. O Rio de Janeiro contabilizou 156 casos e 19 mortes. Em Mato Grosso do Sul, foram 13 casos e um óbito. No Brasil, o total de casos foi de 2.761 e as mortes pela doença chegaram a 234.

Estados mais afetados por enchentes

Estados como Rio Grande do Sul, Mato Grosso do Sul, São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Tocantins e Ceará registram eventos extremos com frequência. As regiões Sul e Centro-Oeste lideram os registros, impulsionadas por chuvas intensas e fenômenos como o El Niño.

 

 

Atenção: sintomas podem surgir na primeira semana

A pessoa infectada pela bactéria Leptospira pode apresentar sintomas na primeira semana (fase precoce da doença), como:

  • Febre súbita acima de 38°C
  • Calafrios
  • Dor de cabeça
  • Dor muscular (principalmente na panturrilha)
  • Falta de apetite
  • Náuseas e vômitos

Cerca de 30% dos pacientes apresentam olhos vermelhos, característica marcante da doença, segundo o Ministério da Saúde.

Casos graves

Em aproximadamente 15% dos casos, a doença evolui para quadros mais graves a partir da segunda semana, quando há aumento da produção de anticorpos. Os principais sinais são:

  • Icterícia (pele e olhos amarelados)
  • Insuficiência renal
  • Alteração no nível de consciência
  • Hemorragias

Tosse seca e falta de ar podem indicar comprometimento pulmonar. A taxa de mortalidade é de cerca de 10%, podendo chegar a 50% quando ocorre hemorragia pulmonar.

Como os testes atuais detectam a leptospirose apenas após uma semana do início dos sintomas, é fundamental procurar atendimento médico diante de qualquer suspeita para iniciar o tratamento com antibióticos.

A atenção deve ser redobrada após exposição a enchentes, pois a doença pode se manifestar até 30 dias após o contato com lama ou água contaminadas.

Texto: Ray Santa Cruz
Fotos: Acervo Adilson Almeida / Envato.
Fontes: Instituto Butantan Trata BrasilVejaMapa da Leptospirose

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