No sul da Bahia, onde o cheiro de cacau faz parte da memória coletiva e a Mata Atlântica ainda molda a paisagem, uma empreendedora decidiu ir além da produção de amêndoas. Carine Assunção transformou o desafio de agregar valor ao cacau em um projeto de desenvolvimento territorial, autonomia feminina e fortalecimento da agricultura familiar.
Ela está à frente da Natucoa Chocolates, marca criada dentro de uma cooperativa formada por pequenos e médios produtores da região de Ilhéus (BA), a Coopessba. Essa virada só foi possível pelo acesso à água tratada de qualidade. Para Carine, na cadeia do cacau e do chocolate, higiene não é detalhe. É fundamento e ferramenta de desenvolvimento econômico.
“Água tratada faz parte do sucesso de um negócio sustentável. Quando tem estrutura, as mulheres conseguem empreender com mais segurança. Conseguem planejar, evitar prejuízos e manter a produção. Autonomia também passa por infraestrutura.”
Da amêndoa à marca própria
Essa visão foi construída ao longo de mais de uma década de atuação no campo. Desde 2012, Carine presta assistência técnica a agricultores familiares do sul e baixo sul da Bahia por meio da cooperativa. A atuação vai além do cacau — inclui banana, hortaliças e outras culturas —, mas foi no fruto símbolo da região que surgiu a oportunidade de avançar.
Em 2018, nasceu a Natucoa Chocolates. A proposta era clara: transformar o cacau de qualidade produzido pelos cooperados em chocolate, agregando valor e ampliando renda. Hoje, a marca vende para todo o Brasil por e-commerce, atende empresas, mantém loja física e quiosque em shopping. Um salto que exigiu planejamento, estrutura e estabilidade.
Autonomia feminina começa no território
Produzir chocolate no interior quente da Bahia impõe desafios logísticos. Temperatura, transporte e armazenamento precisam ser controlados com precisão. No campo, os produtores já enfrentaram extremos climáticos: seca severa em 2014 e 2015, seguida por enchentes entre 2020 e 2021.
“As mudanças climáticas impactam diretamente a produção. Já vivemos falta de água no campo e também excesso. Hoje sabemos que é preciso planejamento e estrutura para enfrentar esses cenários.”
Na fábrica, o abastecimento regular e o saneamento instalado garantem segurança alimentar — condição essencial para quem trabalha com alimentos. Ao transformar cacau em chocolate, a renda deixa de depender apenas da venda da amêndoa. O valor agregado fortalece a cooperativa, amplia o mercado e gera mais estabilidade para as famílias envolvidas — especialmente para as mulheres.
E, nesse processo, o chocolate carrega mais do que sabor: carrega a base de um território que aprende a transformar infraestrutura em oportunidade.
Texto: Ray Santa Cruz
Foto: Arquivo Carine Assunção
Fontes: Natura | Trata Brasil | Estudo Saneamento e a Vida da Mulher Brasileira