Mesmo longe do mar, nossa vida depende dos oceanos

Mesmo longe do mar, nossa vida depende dos oceanos

Em São Paulo capital (SP), Palmas (TO), Goiânia (GO) ou qualquer cidade afastada do litoral, é comum pensar que os oceanos fazem parte de uma realidade distante. Mas a verdade é justamente o contrário: os mares influenciam o clima, a produção de alimentos, o regime de chuvas, a economia e a biodiversidade que sustenta a vida no planeta.

Embora ocupem cerca de 70% da superfície terrestre, os oceanos ainda são vistos por muitos apenas como espaços de lazer ou turismo. Por isso, especialistas alertam que proteger os mares é uma necessidade para garantir qualidade de vida, desenvolvimento econômico e resiliência climática para as próximas gerações.

Os oceanos ajudam a regular o clima do planeta

Os mares regulam o sistema climático global. Eles absorvem calor da atmosfera, armazenam carbono e influenciam a formação de chuvas e a circulação dos ventos.

No entanto, as mudanças climáticas vêm alterando esse equilíbrio. Segundo o professor titular do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (USP) e coordenador da Cátedra UNESCO para a Sustentabilidade do Oceano, Alexander Turra, os sinais já são evidentes.

“O oceano depende da temperatura da água do mar, que vem aumentando à medida que a da atmosfera também sobe. Com isso, diminuímos a capacidade dos mares de ajudar a manter o calor atmosférico em níveis não tão exacerbados. Isso remete a cenários futuros de um aquecimento intenso, com impactos para as pessoas e para a biodiversidade da qual dependemos para o funcionamento do planeta.”

Esse desequilíbrio ajuda a explicar a ocorrência cada vez mais frequente de enchentes, secas prolongadas, ondas de calor e outros eventos extremos observados no Brasil e em diferentes regiões do mundo.

A biodiversidade marinha sustenta a vida na Terra

A biodiversidade marinha envolve uma rede ampla de organismos e ecossistemas que garantem o funcionamento dos sistemas oceânicos. Manguezais, praias, recifes de coral, bancos de rodolitos e inúmeras outras formações naturais desempenham funções fundamentais para a manutenção dessas espécies e para o equilíbrio ambiental global.

“Quando pensamos na conservação do oceano, temos que pensar em todas essas conexões e relações, e em como garantir que elas continuem funcionando. É isso que permite que esses ambientes sigam trazendo benefícios para as pessoas.”

Para o biólogo, os oceanos estão conectados à vida humana, aos rios, aos mares e a diferentes elementos.
Para o biólogo, os oceanos estão conectados à vida humana, aos rios, aos mares e a diferentes elementos.

O alerta da ciência para a saúde dos oceanos

Os impactos das atividades humanas sobre os mares já atingem níveis preocupantes. Um estudo do Plymouth Marine Laboratory (publicado em 2025), no Reino Unido, mostrou que a acidificação dos oceanos ultrapassou em 2020 um dos chamados limites planetários, indicadores que medem a capacidade da Terra de manter condições ambientais estáveis para a vida.

Entre os efeitos identificados estão o comprometimento de cerca de 60% do oceano até 200 metros de profundidade, a redução de 43% dos habitats de recifes de coral tropicais e a redução de 20% na biomassa de peixes, em decorrência das ondas de calor marinhas.

Os impactos chegam à economia, à alimentação e à saúde

A degradação dos oceanos alcança atividades econômicas, comunidades costeiras e a população em geral.

A diminuição dos estoques pesqueiros compromete a renda de milhares de famílias e pode afetar a oferta de alimentos. A contaminação das águas prejudica o turismo e aumenta os riscos à saúde pública. Já a perda de biodiversidade reduz a capacidade dos ecossistemas de enfrentar mudanças ambientais e continuar fornecendo serviços essenciais. Para o professor Alexander Turra, proteger os oceanos significa proteger a própria humanidade.

“Tudo aquilo que a biodiversidade marinha gera em termos de benefícios materiais e imateriais é fundamental para a nossa existência. A perda desses ambientes significa, em última instância, inviabilizar a vida no planeta.”

O que acontece nas cidades também chega ao mar

Resíduos descartados inadequadamente, poluição dos rios e falta de tratamento de esgoto acabam percorrendo bacias hidrográficas inteiras até chegar aos mares. O resultado é a contaminação da água, o aumento da carga de nutrientes, a proliferação de algas e a pressão sobre espécies e habitats marinhos.

Nesse contexto, a infraestrutura de saneamento desempenha um papel estratégico para reduzir a poluição e proteger esses ecossistemas.

“O saneamento ajuda a promover a vitalidade dos sistemas costeiros e marinhos e contribui para a preservação da biodiversidade. Estamos falando de atividades que não podem se desconectar uma da outra. Precisamos compreender o potencial que o saneamento tem de gerar benefícios para diferentes atividades humanas.”

Um compromisso que envolve toda a sociedade

Governos têm a responsabilidade de criar políticas públicas, fiscalizar e estabelecer instrumentos de gestão ambiental. Empresas podem investir em inovação, pesquisa e soluções sustentáveis. Já os cidadãos exercem um papel importante por meio de escolhas conscientes e da participação nos debates que definem os rumos da sociedade.

“Talvez a principal atitude simples que as pessoas possam ter seja ler e se informar de forma crítica, participar das discussões e refletir sobre suas escolhas de consumo – seja de água, energia ou produtos. É assim que conseguimos conectar o local ao global e construir caminhos rumo à sustentabilidade.”

Texto: Ray Santa Cruz

Fotos: Imagem gerada por IA/ Acervo Prof. Alexander Turra

Fontes: Clima Info | Agência Brasil

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