Para mulheres que desejam iniciar um negócio, os caminhos muitas vezes são mais tortuosos e longos. Além dos entraves típicos de quem tem família ou exerce o papel de mãe solo, viver em locais sem saneamento básico se torna uma condição ainda mais desigual em comparação a quem tem água tratada na torneira.
De acordo com o Trata Brasil, o saneamento pleno poderia tirar 635 mil mulheres da pobreza.
Levantamento divulgado em 2025 aponta que a universalização elevaria a remuneração média feminina de R$ 1.984,74 para R$ 2.105,08 por mês — um acréscimo anual de R$ 1.444,12 por trabalhadora.
Quando ampliado para todo o país, o ganho total pode chegar a R$ 13,584 bilhões por ano, com quase metade concentrada nas regiões Norte e Nordeste — justamente onde o acesso aos serviços ainda é mais precário.
Autonomia e poder de transformar
Quando decidiu transformar o cacau produzido pela agricultura familiar do sul da Bahia em chocolate fino, em 2012, Carine Assunção enxergou mais do que uma oportunidade comercial: viu um caminho para fortalecer a autonomia no território da Mata Atlântica de Ilhéus.
“A água tratada, a higiene e a estrutura adequada precisam fazer parte de um negócio para que ele seja sustentável e responsável. A gente sempre reforça isso. Não existe desenvolvimento econômico real sem infraestrutura básica. Para que um negócio seja sustentável, ele precisa começar no território — da base até chegar ao consumidor”, explica.

Energia instável e eventos extremos
Embora a fábrica esteja localizada em área com saneamento, o contexto regional ainda impõe desafios. O Sul da Bahia enfrentou eventos climáticos extremos nos últimos anos. Entre 2014 e 2015, houve forte crise hídrica. Já entre 2020 e 2021, enchentes atingiram áreas próximas à cooperativa.
“Mesmo tendo saneamento adequado, estamos falando do interior. Há muita instabilidade, principalmente em relação à energia. Já tivemos problemas com queima de equipamentos.”
No Brasil, saneamento e energia elétrica estão interligados. Crises hídricas afetam os reservatórios das hidrelétricas, enquanto falhas no fornecimento de energia podem provocar interrupções no abastecimento de água. Da mesma forma, a má gestão hídrica agrava secas em bacias hidrográficas, reduzindo a geração de energia.
Saneamento: base para a independência econômica das mulheres
Na produção de chocolate, a água não é o principal insumo, mas a regularidade do abastecimento e da energia é fundamental para garantir qualidade, segurança alimentar e continuidade das operações.
Empreender exige estrutura. É justamente nesse ponto que saneamento e autonomia feminina se conectam. Quando a infraestrutura falha, a produtividade diminui. Quando funciona, amplia oportunidades.
Texto: Ray Santa Cruz
Fotos: Arquivo Pessoal Carine Assunção
Fontes: Natura – Trata Brasil – Estudo Saneamento e a Vida da Mulher Brasileira