Rede de esgoto ampliada, hepatite A praticamente zerada

O bairro Cidade de Deus, localizado na zona norte de Manaus, é uma das maiores áreas de favelas do país, segundo o IBGE. Durante anos, moradores conviveram com a ausência de infraestrutura básica e com o esgoto a céu aberto em frente às casas.

Há 15 anos, o comerciante Gustavo Batista acompanha de perto essa trajetória. Com a chegada da rede de coleta e tratamento de esgoto, ele observa mudanças concretas na rotina da comunidade.

“O que eu estou vendo hoje é o nosso bairro Cidade de Deus dando um grande passo para o saneamento básico, que é fundamental para o crescimento da comunidade e para a nossa saúde. A partir de agora, nossos filhos vão poder brincar na rua sem ter contato com esgoto a céu aberto. O que estava faltando para a gente era justamente isso.”

A percepção do morador encontra respaldo nos dados de saúde pública. Uma reportagem do A Crítica, publicada em agosto deste ano, com base em informações da Fundação de Vigilância em Saúde Dra. Rosemary Costa Pinto (FVS/RCP) mostra que, entre janeiro e março, não foi registrado nenhum caso de hepatite A em Manaus. A doença está diretamente relacionada ao saneamento, já que a transmissão ocorre por água ou alimentos contaminados.

Segundo dados da Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS-AM), Manaus registrou uma redução de 88% nos casos de hepatite A nos últimos sete anos. Em 2018, foram 52 notificações da doença. Em 2024, o número caiu para seis casos.

Um contraste com o passado

Os dados atuais contrastam com a realidade vivida por Manaus décadas atrás. Há cerca de 30 anos, a capital amazonense enfrentou um surto de hepatite A. Em abril daquele período, uma reportagem da Folha de S.Paulo apontava 190 casos confirmados da doença e mais de mil casos suspeitos.

Comerciante Gustavo Batista viu o saneamento chegar na maior favela de Manaus.
Comerciante Gustavo Batista viu o saneamento chegar na maior favela de Manaus.

Hoje, o que Gustavo Batista observa no dia a dia do Cidade de Deus, como ruas mais limpas e menor contato com o esgoto, faz parte de um processo mais amplo. Nos últimos sete anos, o acesso à água tratada em Manaus foi universalizado. Já a cobertura de esgotamento sanitário passou de 19% para cerca de 35%, com obras em expansão em diferentes zonas da cidade.

Quando a infraestrutura chega, a vida muda

A ampliação do saneamento contribui para reduzir a circulação de agentes infecciosos no ambiente, diminuindo a contaminação do solo e da água e interrompendo o ciclo de transmissão de doenças como a hepatite A – por isso a redução nos índices.

Apesar dos avanços, os desafios permanecem. A Região Norte ainda concentra alguns dos piores indicadores de saneamento do país. Dados do Instituto Trata Brasil mostram que a maioria das capitais da região aparece nas últimas posições do Ranking do Saneamento, divulgado em 2025.

No Cidade de Deus, a nova infraestrutura altera uma realidade histórica e representa a chance de traçar um caminho diferente. Que outros Gustavos e seus vizinhos também tenham a mesma oportunidade.

Texto: Daniele Brito

Fotos: Arquivo Águas de Manaus.

Fontes: G1 | Trata Brasil

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