A falta de banheiro em casa ainda é realidade para muitas famílias. De acordo com o Censo de 2022, 4,5 milhões de brasileiros vivem em casas sem banheiro, o que representa 1,37 milhão de domicílios sem esse espaço essencial. Com isso, para milhões de meninas brasileiras, menstruar ainda significa enfrentar vergonha, dificuldades e até ausência na escola. A falta de banheiro e de saneamento nas escolas também transformam um processo natural do corpo em um obstáculo para a educação.
Segundo relatório do UNICEF e do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), cerca de 713 mil meninas no Brasil vivem sem acesso a banheiro ou chuveiro em casa, enquanto mais de 4 milhões enfrentam ao menos uma privação de higiene nas escolas, como falta de absorventes, sabonete ou instalações adequadas.
A pobreza menstrual vai muito além do acesso a absorventes. Está diretamente ligada à ausência de infraestrutura básica, como água tratada, banheiro e rede de esgoto. Dados do mesmo levantamento mostram que 900 mil meninas não têm água tratada em casa e 6,5 milhões vivem em residências sem ligação à rede de esgoto. Sem essas condições, cuidar da higiene menstrual se torna um desafio diário.

Projeto Sem Pobreza Menstrual
Para a advogada Thiciane Carneiro, que realizou por um período de dois anos o projeto Sem Pobreza Menstrual, em João Pessoa (PB), a falta de estrutura para lidar com a menstruação faz com que estudantes faltem às aulas, perdendo oportunidades. Uma situação que perpetua desigualdades e até coloca a saúde em risco.
“Viver sabendo que vai menstruar e que não tem absorvente e higiene necessários para trabalhar, estudar e entrar na rotina diária é viver mais vulnerável e propensa a não ter oportunidades. Principalmente para adolescentes, já que inúmeras deixam de ir a escola, de ter o primeiro emprego e de ter um elo social. Esse impedimento às atividades básicas têm um impacto gigante na vida de qualquer menina, que está tendo uma parte da vida tirada”.
Dignidade menstrual
Garantir banheiro, água e infraestrutura adequada nas escolas e nas casas não é apenas uma questão de saúde pública. É também uma forma de assegurar que meninas possam estudar, crescer e construir oportunidades em condições de igualdade. Porque dignidade menstrual começa com algo simples — mas ainda distante para milhões: um banheiro e acesso à água.
Texto: Ray Santa Cruz
Fotos: Arquivo pessoal e imagens criadas por IA.
Fontes: UNFRA Brasil – Unicef Brasil – Estudo Pobreza Menstrual – Trata Brasil – Estudo Trata Brasil