Muito antes de Manaus (AM) se transformar em uma metrópole amazônica, os igarapés já desenhavam o território. A palavra, de origem tupi, significa “caminho de canoa” e define os estreitos cursos d’água que cortam a floresta e conectam nascentes, rios e comunidades.
Considerados as artérias da Amazônia, os igarapés cumprem funções essenciais para o equilíbrio ambiental. Eles abrigam espécies de peixes, plantas e anfíbios, ajudam na drenagem natural da água e sustentam modos de vida tradicionais. Ao longo dos séculos, também orientaram a expansão urbana de Manaus, que cresceu ao redor desses corpos hídricos.
Com o avanço da ocupação urbana, muitos igarapés passaram a sofrer os impactos da falta de infraestrutura, do descarte irregular de resíduos e da ocupação desordenada. Em uma cidade marcada pela presença da água, preservar esses cursos naturais tornou-se um dos principais desafios ambientais e urbanos. É nesse contexto que o saneamento básico surge como uma das ferramentas mais importantes para recuperar os igarapés e melhorar a qualidade de vida da população.

Esgoto chega ao beco São Vicente
Cortado pelo igarapé do Gigante, um dos mais conhecidos de Manaus, o beco São Vicente, na zona centro-oeste, tornou-se a primeira área de rip-rap (trecho à margem com pilhas de rochas ou sacos para combater e prevenir a erosão hídrica) a receber obras de implantação de rede de esgotamento sanitário.
A artesã Cristina da Silva, 63 anos, mora na comunidade há mais de 15 anos e acompanha as mudanças. Segundo ela, a chegada da água tratada, em 2019, já trouxe reflexos positivos para a saúde e para a rotina das famílias. Agora, a expectativa é que o esgoto represente mais um passo na construção de uma comunidade mais saudável e na preservação do igarapé.
“Hoje a gente sente diferença na qualidade da água, na higiene da casa, no cuidado com os alimentos e até na saúde da comunidade. A chegada do esgoto é a realização de um sonho antigo de quem mora aqui. Isso vai trazer mais dignidade, melhorar o ambiente, acabar com problemas de odor e valorizar ainda mais o nosso lugar. A gente quer que nossos filhos e netos encontrem um igarapé mais cuidado, mais limpo e uma comunidade melhor para viver. Estou muito feliz em ver esse progresso chegando aqui.”

Estruturas no igarapé
Até o fim deste ano, mais de 600 moradores terão acesso à coleta e ao tratamento de esgoto. O projeto prevê a implantação de mais de 1,2 quilômetro de rede coletora e uma estação elevatória que transportará os efluentes até a Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) Parque Mosaico. A iniciativa faz parte do Trata Bem Manaus, programa que prevê investimentos de aproximadamente R$ 2 bilhões para ampliar a coleta e o tratamento de esgoto na capital amazonense. Atualmente, mais de 63 milhões de litros de esgoto são tratados diariamente pela Águas de Manaus antes de retornarem ao meio ambiente.
As obras na área de rip-rap exigiram soluções específicas para a realidade local. O gerente de Projetos da Águas de Manaus, Waldiney Lima, explica que, por conta do relevo e das características da comunidade, a concessionária desenvolve estruturas metálicas para garantir a estabilidade da tubulação, inclusive durante os períodos de chuva.
“É um desafio técnico. Cada projeto passa por um planejamento detalhado, que considera as características do terreno, o padrão de ocupação e as condições de acesso. Isso cria as condições necessárias para a melhoria da qualidade de vida da população e para a recuperação dos igarapés, que são parte da identidade de Manaus.”
Texto: Camila Henriques e Ray Santa Cruz
Fotos: Águas de Manaus
Fontes: Águas de Manaus