A história do banheiro: de latrinas romanas ao vaso inteligente

A história do banheiro: de latrinas romanas ao vaso inteligente

Há um cômodo que quase todo mundo visita todos os dias, mas que raramente aparece nas conversas sobre história: o banheiro. Por trás da descarga, da torneira e do papel higiênico existe uma longa história de invenções, costumes, desigualdade e, principalmente, saneamento.

A relação das sociedades com os próprios dejetos mudou radicalmente ao longo dos séculos. Hoje, o banheiro é indispensável. Mas ele nem sempre esteve ali. 

Tudo começou há milhares de anos

Os primeiros registros de estruturas sanitárias rudimentares remontam a cerca de 3 mil a.C., na civilização urbana da Mesopotâmia. Já existiam latrinas, mostrando que a preocupação em afastar os dejetos dos espaços de convivência é muito mais antiga do que o banheiro moderno.

Os romanos levaram essa ideia a outro nível. No século 3 d.C., havia cerca de 144 latrinas públicas em Roma, muitas delas abastecidas por água corrente. As instalações faziam parte de um sofisticado sistema de saneamento, que incluía as famosas cloacas romanas — túneis construídos com pedras e alimentados por riachos naturais próximos à cidade. Com inclinação para levar ao Rio Tibre os dejetos dos banheiros públicos e a água da drenagem de pântanos, os túneis também tinham passagens para manutenção. 

Os romanos criaram excelentes alternativas de saneamento.
Os romanos criaram excelentes alternativas de saneamento.

Quando a rua virou banheiro

Depois do período romano de ascensão ao saneamento, praticamente todas essas soluções foram abandonadas pelos europeus. Na época medieval, cidades como Londres, Paris e Berlim cresciam sem infraestrutura suficiente para acompanhar a população.

Fezes e urina passaram a ser despejadas em ruas, rios e áreas próximas às moradias. Latrinas externas também eram comuns. Quando chovia, a água espalhava o material acumulado, transformando o espaço urbano em um ambiente ainda mais insalubre.

O banheiro, nesse contexto, determinaria as condições de saúde urbana.

No início do século 19, relatos sobre cidades europeias descreviam ruas tomadas por lixo, dejetos e animais mortos.
No início do século 19, relatos sobre cidades europeias descreviam ruas tomadas por lixo, dejetos e animais mortos.

A invenção que mudou tudo

Em 1596, o inglês sir John Harington, poeta e cortesão, criou um vaso com descarga para a residência da rainha Elizabeth 1ª. A invenção, porém, não se tornou popular naquele momento.

Foi somente em 1775 que Alexander Cumming patenteou um vaso sanitário com descarga e vedação contra odores. Em 1778, Joseph Bramah aperfeiçoou o projeto.

O desenvolvimento do chamado water closet, o famoso WC, avançou junto com as novas ideias sobre abastecimento de água e esgoto.

A descarga, sozinha, não resolveria o problema. Era preciso ter para onde levar aquilo que saía do vaso. E, assim, redes de esgoto passaram a ser construídas em Londres.

O banheiro encontra o saneamento

O banheiro passou a ser cada vez mais integrado às redes subterrâneas de esgoto no século 19. Em 1852, Londres abriu um banheiro público destinado exclusivamente aos homens.

Mas havia uma contradição: a cidade já contava com banheiros e sistemas de esgoto, porém ainda despejava grandes volumes de resíduos nos rios.

Relatos da época descrevem o Rio Tâmisa totalmente poluído, com animais mortos e gases inflamáveis que chegavam a produzir grandes chamas sobre a superfície — evento que levou o nome de “Grande Fedor” quando chegou o verão.

A crise sanitária ajudou a acelerar pesquisas e investimentos em obras de esgoto mais sofisticadas e com estações de tratamento em 1859. O desenvolvimento britânico acabou influenciando outras cidades europeias.

Um banheiro, vários mundos

Ter um vaso sanitário é comum em muitas partes do mundo, mas a maneira de usar o banheiro está longe de ser universal.

No Ocidente, especialmente nos Estados Unidos e na Europa, o papel higiênico e o vaso para uso sentado predominam. Em países muçulmanos e na Ásia, a limpeza com água é tradicionalmente mais comum, utilizando duchas, jarros ou outros recursos.

No Japão, tecnologia e higiene se encontram nos washlets, vasos eletrônicos que podem oferecer jatos de água, aquecimento e outros recursos.

As diferenças mostram que o banheiro também é cultura: hábitos de limpeza, posição corporal e equipamentos variam conforme a história, a religião, o clima, a infraestrutura e os costumes de cada sociedade.

Quando o banheiro virou status

Durante muito tempo, ter um banheiro dentro de casa não era apenas uma questão de higiene. Era sinal de posição social.

No Brasil, até o século 19, penicos e latrinas externas eram comuns, e pessoas escravizadas transportavam os dejetos das casas. Com as redes de água e esgoto, os hábitos urbanos começaram a mudar entre o fim do século 19 e o início do 20.

Na década de 1970, a quantidade de banheiros podia funcionar como indicador de status na alta sociedade. Em residências das classes mais abastadas, esses ambientes recebiam louças sofisticadas, azulejos importados e ferragens elaboradas.

Por outro lado, órgãos oficiais do governo, como o IBGE, nunca usaram a quantidade de banheiros como único indicador de pobreza. Ainda assim, a presença de banheiro de uso exclusivo sempre foi um dos componentes dos indicadores de saneamento e condições de vida. 

O próximo capítulo

O banheiro levou milhares de anos para chegar ao formato atual, mas a história está longe de terminar. É necessário pensar que todas as pessoas devem ter acesso a banheiros seguros. No Brasil, 4,4 milhões de habitantes ainda não possuem esse cômodo dentro de casa, segundo pesquisa do Trata Brasil. Em pleno século 21, o desafio é grande: o saneamento não é luxo e deve ser acessado por toda a população.

Leia também a história da água tratada em: A melhor ideia do mundo não está no museu, está na sua pia.

Texto: Ray Santa Cruz

Edição de conteúdo: Rosiney Bigattão.

Fotos: Imagens criadas por IA

Fontes:  Wikipedia | Artigo Corpo, Casa e Cidade | DW | Trata Brasil

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