Tem gente que ainda olha para o lixo como descarte. Mas, nas periferias brasileiras, uma nova geração já começou a enxergar valor onde antes só havia desperdício. Para muitos jovens, a reciclagem deixou de ser apenas pauta ambiental e passou a representar renda, autonomia e oportunidade real de transformação social.
É nesse cenário que a startup baiana SOLOS vem construindo um modelo que une economia circular, educação ambiental e inclusão produtiva. Com atuação nacional, a empresa conecta cidadãos, cooperativas, empresas e catadores para ampliar a reciclagem e fortalecer a cadeia de resíduos recicláveis no Brasil.
Fundada em Salvador (BA), a iniciativa aposta justamente no protagonismo das novas gerações para mudar hábitos e criar cidades mais sustentáveis, como aponta Saville Alves, cofundadora e líder de negócios da empresa.
“Aqui na SOLOS nosso grande sonho é fazer a reciclagem acontecer de forma justa e inclusiva. Isso significa que acreditamos que a logística reversa precisa ser acessível, inclusiva e relevante.”

Reciclagem como ferramenta de mobilidade social
Ainda segundo Saville, a reciclagem precisa ser vista também como uma política de geração de renda. Hoje, com milhares de brasileiros vivendo integral ou parcialmente da atividade no país, fortalecer o setor significa ampliar oportunidades e tornar o trabalho mais digno.
Para ela, é preciso estruturar a área para que se profissionalize. Assim, o valor agregado do quilo dos recicláveis é aumentado, ampliando o número de pessoas que fazem a coleta e adicionando condições mais dignas para que haja melhoria da qualidade de vida para todos.
“Se a gente muda a visão e coloca os atuais catadores como postos de trabalho verde, conseguiremos tornar mais atrativo e justo para que mais jovens possam entrar no setor por escolha, e não apenas por necessidade.”
Cooperativas mais fortes e juventude no centro
Um dos pilares da startup é justamente apoiar cooperativas de reciclagem com estruturação de gestão, regulamentação e acesso a novos mercados.
“A profissionalização do setor é nossa prioridade. Por isso, temos apoiado as cooperativas na sua regulamentação, na sua estruturação de gestão, no acesso a recursos de editais e na ampliação das suas redes de comercialização. Tudo isso faz com que elas aumentem o ticket médio de venda e diversifiquem suas fontes de receita. Subvertemos a lógica de que cooperativa deve ser ‘paga’ com material e criamos um novo ganho com a adição do valor do serviço. Em escala, esse formato gera significativos ganhos econômicos e financeiros para cooperativas e catadores.”
Esse modelo busca romper com práticas antigas que limitavam a remuneração das cooperativas apenas ao material coletado.
Educação ambiental que conversa com a periferia
Além da atuação na cadeia produtiva, a empresa também aposta na educação ambiental como ferramenta de transformação social. Um dos exemplos é o projeto ReciclAÍ, desenvolvido com oficinas lúdicas para crianças e jovens de baixa renda em escolas públicas. A ideia é mostrar que a sustentabilidade também faz parte da realidade das periferias.

Outro projeto citado é o RODA, que leva coleta seletiva porta a porta para bairros populares de Salvador. A iniciativa permite que moradores agendem gratuitamente a retirada de resíduos recicláveis na porta de suas casas.

A nova geração já está mudando o presente
Com média de idade de 27 anos entre os colaboradores, a SOLOS aposta na juventude como força central para acelerar mudanças ambientais e sociais. A startup já atua em parceria com grandes empresas, como Ambev, Heineken, Braskem e iFood, buscando integrar a sustentabilidade aos modelos de negócio.
Para Saville, o debate sobre sustentabilidade precisa sair da promessa futura e ganhar espaço no presente. Ela cita que a sustentabilidade é para todos e, hoje, é acessível às favelas.
“As novas gerações são a geração do presente. Do agora. Então precisamos estimular a participação deles nas vivências de já e não desse ‘futuro’ que nunca chega e sempre fica para a próxima geração resolver. Os jovens já estão transformando o futuro hoje. Os jovens não precisam se adaptar; eles precisam construir.”
Ela acredita que os jovens não devem apenas se adaptar às mudanças climáticas e aos desafios ambientais, mas liderar novas formas de construir cidades e relações de consumo. Um dos objetivos é quebrar a ideia de que a sustentabilidade é algo distante e aproximar o tema da realidade de cada um, principalmente nas periferias do Nordeste.
“Esse jeito atualizado de estabelecer relações, vínculos; de definir prioridades e desejos. Esse jeito automatizado, ‘aietizado’, digitalizado. Não sei se é o jeito que eu, aos 34 anos, faria, mas é o jeito que a geração dos 16 aos 25 sabe e pode fazer. Então sigo como Ariano Suassuna: ‘um realista esperançoso’.”
Texto: Ray Santa Cruz
Fotos: Acervo Solos
Fontes: Insta Solos | Solos | Impacta Nordeste