É 2026 e milhões de brasileiros ainda convivem com privações que deveriam ter sido superadas há décadas. A falta de estrutura básica se manifesta de diversas formas, cada uma com impactos diretos na vida da população. Uma das principais é a saúde — não se faz saúde pública sem infraestrutura, e não estamos falando de grandes prédios ou obras colossais, mas de serviços básicos como o acesso ao saneamento.
“No Brasil, ainda convivemos com grandes desigualdades nesse acesso, o que faz do saneamento não apenas uma questão de infraestrutura, mas de justiça social e de garantia do direito à saúde. A ciência já demonstrou que a maior parte dos problemas de saúde tem origem nas condições de vida, como moradia, alimentação, renda e saneamento.”
A explicação da especialista em saúde coletiva pela Universidade de Brasília, doutora Carla Pintas Marques, encontra ressonância no estudo A Vida sem Saneamento: para Quem Falta e Onde Mora essa População?, publicado pelo Instituto Trata Brasil (2023). Segundo o levantamento, 46,3% das moradias brasileiras possuem algum tipo de privação de saneamento básico.
Na prática, isso significa que quase metade da população vive em casas sem acesso pleno a serviços essenciais, como água tratada, coleta de esgoto, banheiro ou condições mínimas de higiene.

Quando falta o básico, a saúde é afetada
A ausência de infraestrutura dentro e fora das moradias compromete diretamente as condições de higiene e favorece a disseminação de doenças de veiculação hídrica, como diarreias infecciosas, hepatite A, leptospirose e esquistossomose, além de parasitoses intestinais.
Sem acesso a serviços básicos, o problema deixa de ser pontual e passa a ser estrutural, impactando continuamente a saúde da população. Portanto, garantir água tratada, banheiro e coleta de esgoto em todas as moradias é uma condição essencial para melhorar a saúde pública, reduzir desigualdades e promover qualidade de vida.
Para a doutora Carla Pintas Marques, que também é gestora de políticas públicas em saúde, sem infraestrutura adequada, a saúde continuará sendo tratada apenas nas consequências — quando, na verdade, deveria começar na prevenção.
“Sem dúvida. Investir em saneamento é uma das medidas mais custo-efetivas em saúde pública. Ao prevenir doenças, reduz-se a necessidade de consultas, exames, internações e tratamentos. Na prática, isso significa menos pressão sobre os serviços de saúde e melhor uso dos recursos públicos. Ou seja, cada real investido em saneamento gera economia significativa na saúde.”
Texto: Ray Santa Cruz
Fontes: Estudo Trata Brasil | Revista FT