São as mulheres que movem a reciclagem no país. Segundo o Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis, elas são responsáveis por aproximadamente 70% da coleta. Diariamente, elas retiram toneladas de resíduos de ruas, de residências, de comércios e de áreas públicas, garantindo o funcionamento de uma cadeia que mistura geração de renda, redução de impactos ambientais e reaproveitamento de materiais.

A atividade segue marcada pela informalidade, pelos riscos de doenças, pela baixa remuneração e pela falta de reconhecimento. Essa realidade de estigmas é vivida de perto por Ivanilda Pereira, catadora de materiais recicláveis no município de Altaneira, no Ceará. Mãe solo, ela rebate o preconceito diário.
“Muita gente pergunta como eu tenho coragem de trabalhar nisso. Respondo que é um emprego digno. Eu não tenho vergonha do meu serviço, eu trago coisas boas pros meus três filhos e me sinto bem quando as pessoas percebem que estamos fazendo o bem para elas também e deixando a cidade limpa.”
Ivanilda conta que está há dois anos nesse trabalho, e o que mais acha são garrafas de plástico, além de outros materiais. Atuando diariamente em bairros do município, ela encontrou na profissão o sustento da casa.
“Comprei todas as minhas coisinhas, móveis e roupas para meus filhos. Então, a renda que faço com a reciclagem hoje é aquela que eu pago meu aluguel, as contas básicas e a alimentação. Hoje, todo o valor que recebo vai para manter a minha família.”
Corroborando o dado de que as mulheres são maioria na reciclagem, ela conta que, em sua cidade, são elas que fazem esse serviço. “Aqui na cidade, a maioria são mulheres que trabalham na reciclagem. E todas com muito orgulho, pois sabem da importância desse serviço, mesmo que as pessoas no geral não saibam.”

Reciclagem poderia gerar mais renda para catadores
Assim como Ivanilda, mais de 800 mil brasileiros têm na reciclagem sua principal fonte de renda. Os dados são do Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis. O número poderia ser bem maior, mas o Brasil recicla muito pouco.
O Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil 2025, publicado pela Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (Abrema), revela que o país gerou 81,6 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos em 2024, com coleta de 93,7% e reciclagem mecânica de 8,7%. Apesar dos avanços, 40,3% ainda vão para disposição inadequada, como lixões. E a realidade de quem sustenta a reciclagem no Brasil ainda é marcada pela precariedade.
Condições de trabalho e impacto na saúde e na renda
Dentro desse percentual, a atuação dos catadores é central, já que eles são responsáveis por até 90% de tudo o que é reciclado. Invisíveis para grande parte da população, esses trabalhadores são peças-chave no funcionamento e na gestão de resíduos sólidos, que é parte integrante do saneamento básico, mas aparecem como um dos elos mais vulneráveis.
Quem atua diretamente para limpar a cidade muitas vezes vive de forma precária, sem acesso aos serviços básicos de água e esgoto tratados.
As condições de trabalho dessas pessoas também estão longe do ideal. Parte dos catadores atua em cerca de 3 mil lixões existentes no Brasil e, apesar de ser lei, a Abrema indica que apenas 1,7 mil cidades operam com aterros sanitários. O cenário evidencia como a precariedade na gestão de resíduos e no saneamento básico amplia os riscos à saúde pública e reforça ciclos de vulnerabilidade social. O preconceito é uma barreira, como explica o catador José Dutra da Silva, de Caririaçu (CE).
“Dificuldade sempre a pessoa enfrenta. Primeiramente são aqueles que discriminam: ‘Ah, catador de lixo’. Não, eu não sou catador de lixo, eu sou catador de reciclagem. Além de a gente estar colaborando para o meio ambiente, está ajudando os próprios governos.”
Publicado em 2025 pela revista Interfaces Científicas, um estudo de caso realizado em Codó (MA), tendo como base entrevistas com catadores e moradores, identificou uma alta incidência de doenças respiratórias, gastrointestinais e arboviroses. Entre os fatores associados estão a queima de resíduos, a presença de chorume e o descarte inadequado de materiais, incluindo resíduos hospitalares.
Projetos que estão mudando a realidade
O enfrentamento do descarte incorreto de resíduos exige ações integradas entre o poder público e a população, com políticas públicas, educação ambiental e mudança de hábitos.
Um dos exemplos de iniciativas é a Regenera Cariri, que atua para transformar a gestão de resíduos sólidos em nove municípios do Nordeste. Com investimento de R$ 110 milhões em infraestrutura ao longo de 30 anos, o projeto prevê a desativação de lixões, a implantação de unidades de triagem e o tratamento mecânico, além de um aterro sanitário moderno e sustentável.
A iniciativa deve garantir a destinação correta de mais de 270 toneladas diárias de resíduos, reduzindo os impactos ambientais e os riscos à saúde pública. Para mudar a realidade e melhorar o trabalho de quem vive da reciclagem, é necessário dar o primeiro passo, com incentivo ao descarte correto e com a participação da população. Unidos, todos são agentes na construção de cidades mais sustentáveis.
Texto: Ray Santa Cruz
Fotos: Acervo pessoal José e Ivanilda
Fontes: Abrema | MNCR | Recicla Sampa | Trata Brasil | Interfaces Científicas