O que começou como uma inquietação dentro da sala de aula se transformou em uma mobilização capaz de mudar hábitos, fortalecer o trabalho dos catadores e aproximar a comunidade da educação ambiental. Em um dos bairros do município do Crato, no Ceará, estudantes da Escola Juvêncio Barreto decidiram agir e transformaram a reciclagem em ferramenta de conscientização, inclusão social e mobilização comunitária.
“Entendemos a importância do trabalho dos catadores e queremos fortalecer o envolvimento de toda a comunidade nesse processo”, disse a estudante Ana Sarah Barbosa, também destacando que o grupo passou a compreender melhor o impacto da atividade para a comunidade.
A iniciativa também teve a participação dos estudantes Camily Stefany Alves, Ítalo Tauan Ribeiro, Sabrina Silva e Thiago Gabriel Dutra, e ganhou força ao unir conscientização ambiental, participação comunitária e valorização social. Desde 2025, o grupo desenvolve ações voltadas à reciclagem e à educação ambiental dentro e fora da escola.
Neste ano, o projeto passou a contar com apoio do programa de voluntariado da Regenera Cariri e da agência i360.
Da sala de aula para a comunidade
O projeto nasceu após os estudantes perceberem que o descarte inadequado de resíduos fazia parte da rotina do bairro. Ao mesmo tempo, os jovens passaram a enxergar a pouca visibilidade dada aos catadores de materiais recicláveis, trabalhadores fundamentais para a cadeia da reciclagem.
A partir dessa realidade, os alunos organizaram pesquisas de campo, campanhas educativas e gincanas escolares para incentivar a separação correta dos resíduos.
As ações mobilizaram estudantes, professores e moradores da região. O resultado foi a arrecadação de mais de duas toneladas de materiais recicláveis, que posteriormente foram destinados à venda. Segundo a escola, os recursos obtidos ajudaram as turmas participantes e fortaleceram a rede de coleta local.
Mais do que números, o projeto começou a provocar mudanças dentro das casas dos estudantes.

Educação ambiental que muda hábitos
Com o avanço das atividades, a separação dos resíduos deixou de acontecer apenas no ambiente escolar e passou a fazer parte da rotina de muitas famílias do bairro.
Para a professora Géstica Pinheiro, responsável pela orientação do projeto, a principal transformação aconteceu justamente na consciência coletiva dos alunos e dos moradores.
“As ações provocaram uma reflexão crítica. A separação dos resíduos em casa tornou-se um hábito para boa parte dos alunos, provando que a educação é o ponto de partida para mudanças reais”, afirmou.
A experiência também aproximou os estudantes da discussão sobre cidadania, sobre sustentabilidade e sobre responsabilidade social.
Catadores ganham espaço e reconhecimento
Ao longo do projeto, os catadores passaram a ocupar um papel central nas atividades desenvolvidas pelos estudantes. A nova etapa da iniciativa recebeu o título Escola para a Cidadania: um processo democrático na valorização dos catadores e pretende contar a história de trabalhadores que vivem no próprio bairro.
A proposta busca mostrar a importância social, ambiental e econômica da reciclagem, além de ampliar o reconhecimento do trabalho realizado diariamente pelos catadores.
Oficinas aproximam jovens da produção audiovisual
Com o apoio da Regenera Cariri e da agência i360, os estudantes também participaram de oficinas sobre resíduos sólidos e sobre produção audiovisual. A ideia é produzir um documentário mostrando a rotina do projeto e a realidade dos catadores da região.
Segundo Ingrid Botelho, gerente da Regenera Cariri, o trabalho desenvolvido pelos alunos já vinha gerando transformação antes mesmo da chegada da parceria.
“Nosso papel é impulsionar um protagonismo que já existe. Esses jovens já fazem um trabalho que mudou a visão da comunidade sobre reciclagem, e a Regenera entra para fortalecer esse projeto, oferecendo conhecimento técnico para que eles repliquem na escola, em casa e na comunidade as informações sobre o descarte correto de resíduos”, destaca.
Para Jayan Duarte, CEO da agência i360, a iniciativa também abre caminhos para novas oportunidades profissionais aos estudantes, especialmente por meio da inclusão digital.
“Hoje, o digital mostra que você, com um celular, conhecimento e vontade de aprender, consegue executar serviços e se tornar um profissional. Nossa intenção é mostrar que é possível sair da escola e fazer uma transição tranquila para o mercado de trabalho, provando que esses jovens podem ser o que quiserem, independentemente da condição social ou de virem de uma escola pública”, afirma Jayan.
Projeto ganha reconhecimento científico
O trabalho desenvolvido pelos estudantes conquistou o primeiro lugar na categoria de Ciências Humanas na etapa regional do Ceará Científico (CREDE 18), em 2025.
Além do reconhecimento acadêmico, a iniciativa também está alinhada à Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) e aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU), especialmente ao ODS 12, voltado ao consumo e à produção responsáveis.
No Crato, a experiência mostra como a educação ambiental pode ultrapassar os muros da escola e se transformar em uma ferramenta concreta de cidadania, de inclusão social e de transformação comunitária.
Texto: Raiana Lucas e Ray Santa Cruz
Fotos: Regenera Cariri
Fontes: Regenera Cariri