Gestão de resíduos: hospital em MS é referência na América Latina

Gestão de resíduos: hospital em MS é referência na América Latina

A economia circular, baseada no reaproveitamento de recursos, na redução de resíduos e no uso eficiente de energia, já é realidade em iniciativas de saneamento e sustentabilidade no Brasil. No entanto, apesar dos avanços, o modelo ainda é pouco conhecido pela maior parte da população.

Um dos pontos centrais desse debate é a gestão de resíduos sólidos — um dos pilares do saneamento básico — e a sua relação direta com a saúde coletiva. Em Campo Grande (MS), o Hospital São Julião se tornou referência ao mostrar, na prática, como essa conexão pode gerar impactos positivos.

Resíduos, saneamento e saúde caminham juntos

Para o gestor de Política Ambiental do Hospital São Julião, Bruno Maddalena, o manejo adequado de resíduos deve ser entendido como parte essencial do saneamento básico e, consequentemente, como um fator que influencia a saúde da população. Para ele, a redução do envio de resíduos, inclusive infectantes, para aterros sanitários diminui os impactos ambientais e, embora nem sempre seja possível medir com precisão esses efeitos, há evidências de que a destinação inadequada compromete a qualidade ambiental e pode afetar a saúde das comunidades.

Além de diminuir o impacto ambiental, esse modelo gera economia para as empresas, cria emprego e renda para quem trabalha com materiais recicláveis e, indiretamente, promove mais saúde para a população.

Gestor ambiental explica processo de reaproveitamento de resíduos.
Gestor ambiental explica processo de reaproveitamento de resíduos.

Da ideia à prática: a virada de chave

A transformação no hospital começou em 2015, com a implantação da coleta seletiva, após iniciativa da gestão ambiental. O processo se iniciou com os recicláveis e, no ano seguinte, incluiu a compostagem dos resíduos orgânicos. Os resultados vieram rapidamente: já nos primeiros anos, mais da metade dos resíduos deixaram de ser enviados para aterros sanitários. Hoje, cerca de 86% são reaproveitados, entre reciclagem, compostagem e outros usos. Outro ponto relevante, segundo Maddalena, é o papel educativo dessas iniciativas.

“O exemplo de um hospital, que é um ambiente complexo, acaba influenciando outras empresas e a sociedade. Existe um movimento crescente de instituições que buscam copiar esse modelo, e isso é muito positivo.”

O desempenho levou à certificação concedida pelo Instituto Lixo Zero Brasil em 2023, consolidando o hospital como referência na América Latina. Vieram também premiações nacionais, como o Prêmio ESG 2025, que destacou o programa Lixo Zero como exemplo de gestão sustentável na saúde pública.

Menos descartáveis, mais consciência

Entre as ações mais importantes está a eliminação de 40 mil copos plásticos descartáveis por mês, medida que reduziu significativamente a geração de resíduos. Para viabilizar a mudança, o hospital passou a distribuir canecas reutilizáveis aos colaboradores e a orientar pacientes e visitantes. Hoje, todos já entendem a importância dessa mudança, ela está na cultura do local.

A coleta seletiva é feita pelos funcionários diariamente e todos separam o lixo ainda nas dependências do hospital. Marmitas são higienizadas logo após o descarte, assim como garrafas e outros materiais reutilizáveis que tenham essa necessidade. O residuário é o local onde a mágica acontece, uma espécie de galpão longe da parte de atendimento aos pacientes. Lá, os itens são separados: plástico, papel, alumínio, vidro e até materiais de construção e produtos orgânicos. 

Todo o material é prensado e enviado para fábricas de reciclagem.
Todo o material é prensado e enviado para fábricas de reciclagem.

As marmitas de alumínio viram blocos de metal. A prensa transforma garrafas PET em um quadrado gigante. As garrafas de vidro viram pó. Tudo isso é transformado em novos materiais. Os produtos são vendidos para fábricas de reciclagem e o valor arrecadado retorna ao hospital. 

Até as frutas consumidas pelos pacientes são parte do projeto, já que a compostagem dos orgânicos vira adubo para centenas de pés de bananeiras plantados pelo terreno.

Modelo inspirador

A experiência do hospital sul-mato-grossense mostra que a mudança é possível — e que o saneamento pode ir além da infraestrutura tradicional, incorporando soluções sustentáveis que beneficiam o meio ambiente, a economia e a saúde. Embora ainda existam desafios, a economia circular é uma ferramenta para transformar o cenário nacional. 

Somos o primeiro hospital da América Latina com esse nível de resultado. A economia circular faz parte da vida desse lugar. Recebemos visitas de gestores hospitalares, professores, estudantes e até administradores públicos interessados em replicar o modelo”, afirma Maddalena.

Texto e fotos: Ray Santa Cruz

Fontes: WWF | Hospital São Julião | Campo Grande News| Ministério da Fazenda

MATÉRIAS
RELACIONADAS

Alunos arrecadam 430 litros de óleo usado e promovem ação sustentável

Do esgoto a céu aberto à uma vida mais digna nas palafitas

O que o saneamento tem a ver com o futuro do planeta — e com a sua vida também