Uma criança não precisa estar doente para que a falta de saneamento afete a sua vida. Basta viver em um ambiente em que a água segura não chega, o esgoto não é tratado e o contato com áreas contaminadas faz parte da rotina. As consequências podem aparecer em infecções repetidas, perda de nutrientes, desnutrição e dificuldades para crescer e se desenvolver.
Para o pediatra Dr. Rinaldo Fábio Souza Tavares, presidente do Departamento Científico de Toxicologia e Saúde Ambiental da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), a relação entre saneamento, saúde e risco de mortalidade infantil começa nos primeiros anos de vida e pode deixar efeitos que se acumulam com o tempo. É uma questão de direitos humanos, segundo ele, e faz parte das condições necessárias para uma infância protegida.
“O saneamento pode ser enquadrado como um direito humano, um direito do cidadão, e não apenas como um serviço de infraestrutura. A não obtenção dele representa uma violação de direito fundamental, que pode levar a efeitos cumulativos e permanentes.”
Um direito desde o começo
Diarreias agudas e crônicas estão entre os principais problemas associados à falta de saneamento. A água contaminada e a ausência de esgoto tratado também favorecem doenças como hepatite A, febres entéricas, giardíase, amebíase e outras parasitoses. O médico alerta que até doenças erradicadas podem retornar devido a fatores de risco, como a falta de saneamento e a baixa cobertura vacinal.
“A ausência de água tratada, coleta e tratamento de esgoto afeta a saúde infantil de uma forma multifatorial. Existe, inclusive, maior incidência de alguns vírus perigosos, como o poliovírus. Apesar de a poliomielite estar erradicada, surtos podem ocorrer esporadicamente em situações de baixa cobertura vacinal. Com pouca cobertura de saneamento, em uma população não vacinada, o vírus pode voltar a circular e reativar uma doença que já estava controlada pela vacinação.”
Os lactentes estão entre os mais vulneráveis. Segundo o médico, crianças menores de seis meses precisam de atenção especial, principalmente quando não estão em aleitamento materno. A preparação de fórmulas exige água potável e cuidados rigorosos de higiene. Tavares também destaca que menores de cinco anos concentram grande parte das mortes por diarreia no mundo, muitas delas relacionadas ao saneamento inadequado.
“Em alguns países do mundo, por exemplo, a cólera é endêmica. Ela continua surgindo em surtos, principalmente em áreas onde há ausência de tratamento de água e de saneamento.”
A desnutrição se acumula
Uma diarreia isolada pode ser superada. O problema é quando ela volta várias vezes. Cada episódio pode significar perda de água, eletrólitos e nutrientes, além de reduzir a ingestão de alimentos durante o período em que a criança está doente. Ou seja, o impacto é maior quando as infecções se repetem.
“A criança doente se alimenta menos enquanto as necessidades calóricas aumentam. Há perda de nutrientes nas fezes, como proteína, gordura e micronutrientes. À medida que esses episódios se repetem, começa a se somar essa perda, e o déficit acumulado pode fazer diferença no crescimento físico e cognitivo da criança.”
As parasitoses também podem contribuir para a desnutrição e para a anemia ferropriva. O organismo passa a ter mais dificuldade para absorver nutrientes em um período decisivo para o desenvolvimento.
“A anemia ferropriva nos primeiros dois anos de vida está associada a déficits cognitivos, muitas vezes não reversíveis, mesmo com a correção posterior. O ferro é fundamental para as estruturas cerebrais relacionadas à memória e ao aprendizado.”
Tavares explica que a exposição contínua a agentes infecciosos pode provocar uma inflamação persistente na mucosa intestinal, fenômeno conhecido como enteropatia ambiental. Isso prejudica a absorção de micronutrientes importantes.
“Não adianta só dar vitaminas tentando repor se você continua com essa absorção prejudicada e esses episódios recorrentes de infecção intestinal. É preciso ter esgoto tratado e água de qualidade para romper esse ciclo e começar a construir um período de melhor absorção, crescimento e desenvolvimento somático e cognitivo.”
O pediatra também explica que quadros graves de desnutrição podem afetar a formação de estruturas cerebrais. Quanto mais cedo ocorre a privação nutricional, maior pode ser o impacto sobre processos importantes do desenvolvimento.
Quando o endereço pesa
Por isso, cuidar da alimentação sem modificar o ambiente onde a criança vive tem alcance limitado. Se a exposição a agentes infecciosos continua, o organismo permanece sujeito a novas perdas. A falta de saneamento atinge de forma mais intensa populações que já convivem com outras vulnerabilidades sociais. Regiões com menor cobertura de saneamento concentram parte desses riscos, mas o problema também aparece dentro das grandes cidades.
Periferias e comunidades onde o crescimento urbano ocorreu sem a infraestrutura necessária podem apresentar condições semelhantes às de áreas com baixa cobertura de serviços.
“A falta de saneamento funciona como um determinante social de saúde. Perpetua um ciclo de pobreza e doença. Crianças que moram em áreas sem saneamento não apenas adoecem e morrem mais, mas sobrevivem com pior qualidade de vida, mais desnutrição e menor potencial produtivo na vida adulta.”
Texto: Ray Santa Cruz
Fotos: Arquivo Pessoal
Fontes: Empório do Direito | JusBrasil | Brasil Escola | Sociedade Brasileira de Pediatria