Esgoto a céu aberto, falta de água, alagamentos, deslizamentos e outros riscos ambientais não atingem todos os territórios da mesma forma. Em muitas comunidades brasileiras, problemas ambientais se somam à ausência histórica de infraestrutura e tornam determinadas populações mais vulneráveis. É nesse contexto que aparece o conceito de racismo ambiental.
O termo ajuda a compreender situações em que populações negras, indígenas, quilombolas e outras comunidades historicamente vulnerabilizadas ficam mais expostas à poluição, à precariedade do saneamento e aos impactos de eventos ambientais e climáticos.
Para saber mais, leia: Justiça ambiental: quando a falta de saneamento tem cor
O território também revela desigualdades
Em muitos casos, essa exposição está relacionada a áreas que receberam menos infraestrutura ao longo do tempo ou permaneceram fora do planejamento urbano.
Para a advogada e especialista em Direitos Humanos Claudia Patricia de Luna Silva, olhar para quem vive nesses territórios é fundamental para compreender o problema.
“Pouco se fala, mas hoje começa a ganhar visibilidade: o racismo ambiental. Muitos desastres e crises climáticas acabam sendo tratados como mera fatalidade. Não são fatalidades. Em regiões privilegiadas, com melhor urbanização e investimentos em infraestrutura, essas situações tendem a ser menos frequentes.”
Segundo a especialista, o cenário é diferente em territórios marcados pela ausência histórica de investimentos.
“Já nos territórios onde faltam investimentos — inclusive em saneamento — esses problemas se repetem com muito mais intensidade. Quando olhamos quem vive nesses locais, encontramos majoritariamente pessoas negras e em situação de pobreza.”
Saiba mais no podcast: Justiça climática – quem mais sofre os impactos.
Um debate que interessa a toda a sociedade
Discutir racismo ambiental não significa afirmar que todos os eventos ambientais tenham uma única causa. Significa observar como vulnerabilidades sociais, desigualdades históricas, ocupação do território e acesso à infraestrutura podem fazer com que determinados grupos estejam mais expostos aos seus impactos.
Por isso, ampliar o acesso ao saneamento é uma das frentes importantes para reduzir essas vulnerabilidades.
Reconhecer que os impactos da falta de infraestrutura não são distribuídos igualmente pela sociedade permite construir políticas capazes de alcançar justamente os territórios que permaneceram, durante décadas, com menor acesso a serviços essenciais.
Texto: Ray Santa Cruz
Fotos: Envato
Fontes: Revista de Direito Agrário e Socioambiental | Livro Racismo Estrutural | UERJ | IBGE