Há crianças para quem chegar à escola significa apenas atravessar o portão. Para outras, o caminho até a sala de aula passa antes por uma torneira que não funciona, pela falta de banheiro ou por uma rotina marcada por doenças. É nesse ponto que educação e saneamento se encontram.
Lançado em 22 de setembro pelo Todos Pela Educação, o Anuário da Educação Básica 2026 reúne dados e séries históricas dos últimos dez anos e mostra que, apesar dos avanços em diferentes indicadores educacionais, as desigualdades ainda começam cedo e acompanham os estudantes durante a trajetória escolar.
Desigualdades desde a infância
Conforme o anuário, em 2025, 43,3% das crianças de 0 a 3 anos estavam matriculadas na Educação Infantil, avanço de 2,2 pontos percentuais em relação a 2024 e de 12,7 pontos percentuais na comparação com 2015. Entre as crianças de 4 e 5 anos, o atendimento chegou a 96,1%, o maior resultado da série histórica. Mas o acesso ainda é desigual: entre os mais pobres, a taxa de atendimento de 0 a 3 anos foi de 34,7%, enquanto entre os mais ricos chegou a 54,7%.
As diferenças também aparecem na trajetória dos estudantes. Em 2025, 92,1% dos jovens brancos e amarelos haviam concluído o ensino fundamental aos 16 anos, contra 86,3% dos pretos, pardos e indígenas. No ensino médio, a diferença aumentou: 81,7% dos jovens brancos e amarelos haviam concluído a etapa aos 19 anos, ante 69,5% dos pretos, pardos e indígenas. Nos resultados de aprendizagem, apenas 18,8% dos estudantes do 9º ano da rede pública apresentavam um nível de aprendizagem adequado em Matemática. No ensino médio, o índice era de 8,5%.
Onde entra o saneamento
O anuário não relaciona esses indicadores ao saneamento. A conexão aparece quando os dados educacionais são observados ao lado de estudos que analisam as condições de vida dos estudantes.
Um levantamento do Instituto Trata Brasil, publicado em 10 de março de 2026, com dados do IBGE de 2024, mostra que, no Nordeste, as pessoas que vivem em residências com acesso ao saneamento tinham média de 8,58 anos de escolaridade, enquanto aquelas sem acesso registravam 6,81 anos — uma diferença de quase dois anos.
O mesmo levantamento aponta uma diferença no desempenho do Enem: estudantes que vivem em residências com banheiro apresentaram nota média de 524,96 pontos, enquanto aqueles que moram em casas sem banheiro registraram 481,48 pontos.
Outro estudo divulgado pelo Trata Brasil em 6 de março de 2026, baseado em uma pesquisa publicada em 2022, apontou que as mulheres estudantes tiveram cerca de 676 milhões de horas de estudo comprometidas por afastamentos provocados por doenças associadas à falta de saneamento. Segundo o estudo, oferecer saneamento a elas poderia reduzir em até 25,6% o atraso escolar.
Infraestrutura também importa
A falta de água e esgoto tratados pode transformar necessidades básicas em obstáculos para a rotina escolar, especialmente em territórios mais vulneráveis. Sem saneamento, podem surgir diferenças na frequência, no tempo dedicado aos estudos e na trajetória educacional.
O desafio apontado pelo anuário, portanto, não se resume a ampliar matrículas. A publicação mostra avanços no acesso, mas também as desigualdades de renda, raça e aprendizagem. Os estudos do Trata Brasil acrescentam outra dimensão a esse cenário ao mostrar que o acesso ao saneamento está associado a indicadores educacionais. São dados de fontes diferentes, mas que ajudam a olhar para uma questão comum: para reduzir desigualdades na educação, também é preciso considerar as condições concretas em que crianças e jovens vivem.
Texto: Ray Santa Cruz
Fotos: Envato
Fontes: Anuário Brasileiro da Educação 2026 | Trata Brasil | Estudo Trata Brasil