O esgoto não pode ser “jogado fora” sem tratamento. Quando ele não é coletado e tratado, segue caminhos muito prejudiciais para a saúde pública, para o meio ambiente e para toda a sociedade. Longe das redes de coleta e tratamento, pode ir para fossas sépticas, valetas, córregos e até mesmo para as ruas, a céu aberto.
Sem esse cuidado, o esgoto carrega microrganismos que podem causar doenças, além de matéria orgânica, nutrientes e outros poluentes. Esses contaminantes podem chegar aos mananciais e comprometer a água usada para o abastecimento. Nos corpos d’água, a decomposição da matéria orgânica consome oxigênio e prejudica a vida aquática. O excesso de nutrientes também pode favorecer a proliferação de algas e afetar o equilíbrio dos ambientes.
Para as pessoas, o contato com o esgoto sem tratamento está associado a condições que favorecem doenças de veiculação hídrica, como diarreias, cólera e outros problemas relacionados à exposição à água contaminada. Para Mônica Gregori, diretora de Impacto e Comunicação do Pacto Global da ONU – Rede Brasil, os efeitos do saneamento alcançam dimensões que nem sempre são percebidas no cotidiano.
“É importante entender todos os impactos positivos que derivam de ter acesso à água e ao esgoto tratados. São impactos que trazem melhorias tangíveis na saúde da população, na possibilidade de ocuparem seus territórios e os seus espaços. Temos exemplos tão importantes de pessoas que estavam entre populações que não tinham acesso à rede de esgoto, e isso não permitia nem que suas crianças brincassem em seus quintais. Então, estamos falando de um impacto muito mais sistêmico, e não somente naquilo que a gente enxerga e consegue tangibilizar.” disse Mônica Gregori.
Quando a rede não chega a todos
O Brasil ainda enfrenta um déficit expressivo no que diz respeito ao esgoto tratado. Segundo dados do Instituto Trata Brasil publicados em maio de 2026, com base no Sinisa (ano-base 2024), cerca de 90 milhões de brasileiros não têm acesso à coleta de esgoto. O levantamento aponta ainda que somente 51,8% do volume gerado no país é tratado antes de retornar ao meio ambiente.
A desigualdade aparece também entre as regiões. No Norte, 16,6% da população conta com coleta de esgoto e 22,5% do esgoto gerado é tratado. No Nordeste, os índices são de 31,7% e 34,6%, respectivamente. No Sudeste, onde os indicadores são mais altos, a coleta chega a 80,8% da população e o tratamento a 62,3%.
Os números mostram que universalizar o serviço envolve dois desafios diferentes: levar a rede a quem ainda não tem acesso e garantir que os imóveis atendidos estejam efetivamente conectados.
Papel de cada um no saneamento
A expansão do saneamento depende também de responsabilidades que se complementam.
Cabe ao poder público formular políticas, planejar a expansão e fiscalizar a prestação dos serviços. Empresas e prestadores precisam executar, manter e ampliar a infraestrutura conforme suas atribuições. Já os moradores têm um papel fundamental na utilização adequada do sistema e na realização da ligação do imóvel quando a rede estiver disponível.
Mônica Gregori destaca justamente a necessidade de ampliar essa compreensão e deixar clara a função de cada agente.
“Na verdade, muito se fala sobre educação para conscientização. Embora o esgoto seja, entre aspas, ‘invisível’, é importante mostrar quais são seus benefícios e qual é a responsabilidade de cada um de nós — da sociedade, das empresas e do setor público. E fazer com que essa realidade chegue a mais pessoas. Na ONU, dizemos que não podemos deixar ninguém para trás.”
Cobrar também é participar
Ter acesso ao saneamento é um direito, e a população precisa cobrar a expansão das redes. Questionar prazos, acompanhar metas de atendimento e exigir qualidade na prestação dos serviços são formas de participação social.
“Quando falamos que devemos levar esgoto e acesso à água tratada a milhões de pessoas, estamos falando de acesso à dignidade e à cidadania. Independentemente de elas saberem ou não como isso funciona, é importante que saibam qual é o seu papel em manter o seu funcionamento de forma que isso continue sendo benéfico para todo mundo.”
A pressão da sociedade ajuda a manter o saneamento na agenda pública e a evidenciar áreas que continuam sem atendimento.
Texto: Ray Santa Cruz
Fotos: Arquivo Pessoal
Fontes: Agência Brasil | Prisma Pedagógico | Trata Brasil| Globo