Paulo Barrocas, da Fiocruz, explica por que saneamento é saúde pública

Paulo Barrocas, da Fiocruz, explica por que saneamento é saúde pública

A Organização Mundial da Saúde (OMS) escolheu o 7 de abril para conscientizar sobre a importância da prevenção para que todos tenham acesso a uma vida saudável. A data reforça uma verdade essencial: saúde não começa no hospital — começa em casa, com água limpa, esgoto tratado e higiene adequada.

O acesso ao saneamento é uma das formas mais eficazes de melhorar a saúde da população. No Brasil, a ampliação desses serviços já mostra resultados concretos: desde 2008, as internações por doenças relacionadas ao saneamento caíram de mais de 615 mil para 344 mil em 2024 — uma redução média de 3,6% ao ano.

Além disso, a universalização do saneamento pode evitar mais de 86 mil internações por ano e reduzir em até 69% os casos dessas doenças em poucos anos. Esse avanço mostra que investir em água tratada e esgoto não é apenas infraestrutura — é prevenção, economia e qualidade de vida.

Mas o desafio ainda é grande

Apesar dos avanços, o Brasil ainda tem mais de 32 milhões de pessoas sem acesso à água potável e cerca de 90 milhões sem coleta de esgoto. Segundo o pesquisador Paulo Barrocas, do Departamento de Saneamento e Saúde Ambiental (DSSA) da ENSP/FIOCRUZ, o país ainda levará décadas para alcançar a universalização.

“Embora tenhamos avançado no acesso à coleta e ao tratamento de esgoto, esse avanço tem sido muito lento, principalmente considerando o passivo histórico que temos no Brasil. Se esse ritmo for mantido, precisaremos de quase mais 40 anos para universalizar o serviço de coleta de esgoto.”

Ele também chama atenção para as desigualdades no acesso e os impactos sociais desse atraso.

“A expansão do serviço não ocorre de forma uniforme no país. Há grandes diferenças entre regiões e até dentro das cidades, o que perpetua a exclusão sanitária de parcelas importantes da população brasileira.”

Essa ausência impacta diretamente a saúde pública e continua gerando centenas de milhares de internações por doenças evitáveis todos os anos.

Quando o saneamento falta, a doença aparece

As Doenças Relacionadas ao Saneamento Ambiental Inadequado (DRSAI), como diarreia e dengue, resultaram em 344 mil internações em 2024, com custo de R$ 174 milhões ao SUS, segundo estudo do Instituto Trata Brasil (2025).

Crianças, idosos e mulheres estão entre os grupos mais afetados. Em 2024, esses casos representaram uma parcela significativa das internações: crianças de até 4 anos somaram cerca de 70 mil ocorrências, enquanto os idosos ultrapassaram 80 mil casos e concentraram maior risco de morte. As mulheres também apresentaram maior incidência, com 53% das internações e taxa superior à dos homens.

De acordo com Paulo Barrocas, essa vulnerabilidade está relacionada tanto a fatores biológicos quanto às condições de exposição. 

“Crianças e idosos têm o sistema imunológico mais vulnerável. Nas crianças, ele ainda não está plenamente desenvolvido, enquanto nos idosos há uma redução natural da imunidade. Além disso, esses grupos passam mais tempo no ambiente domiciliar, o que aumenta a exposição quando não há condições adequadas de saneamento.”

Um investimento que transforma vidas

Para o pesquisador, o saneamento é uma das políticas públicas mais eficientes para salvar vidas. Ampliar o acesso significa reduzir doenças, aliviar o sistema de saúde e garantir que crianças cresçam saudáveis, adultos vivam com dignidade e idosos tenham mais qualidade de vida.

Texto: Ray Santa Cruz

Foto: Acervo Pessoal Paulo Barrocas

Fontes: Estudo Trata Brasil Trata Brasil ONU

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