“De manhã, tomo duas garrafas de 2 litros de água. À tarde, busco fazer serviços em que não preciso de tanto esforço no sol, e continuo a ingerir bastante água para não adoecer”, diz o mestre de obras Marcos Maciel Mendonça, de 64 anos.
Morador de Campo Grande (MS), ele não parou de trabalhar, mesmo podendo se aposentar. Não consegue ficar parado e pega pequenos reparos de forma autônoma junto ao parceiro Adão Antônio da Silva, de 67 anos.
“Meu preparo físico é melhor do que o de muito jovem por aí, mas não podemos abusar. Por isso, já avisamos a clientela do nosso ritmo e dos serviços que oferecemos”, cita.
Desidratação silenciosa
Com previsão de que 2026 bata recordes de calor, o clima passa a ser um possível inimigo dos idosos. As altas temperaturas não representam apenas desconforto — podem se tornar uma ameaça real à saúde. A desidratação, muitas vezes silenciosa, evolui rapidamente e é capaz de desencadear complicações graves, especialmente quando não há acesso à água segura e ao saneamento adequado.
O médico nutrólogo Paulo Gusmão alerta para os mecanismos do corpo diante das altas temperaturas e os riscos ampliados nessa faixa etária.
“O nosso corpo tem mecanismos para manter a temperatura, como a sudorese. Mas, nos idosos, a desidratação pode acontecer sem que eles sintam sede. Muitas vezes, o primeiro sinal é uma alteração comportamental, como desorientação ou sonolência”, explica.
Vulnerabilidade que exige atenção redobrada
Com o avanço da idade, a percepção da sede diminui. Isso significa que os idosos podem já estar desidratados quando começam a apresentar sintomas, especialmente aqueles com Alzheimer, que não buscam água sozinhos, o que aumenta o risco de quedas, confusão mental e internações. Além disso, infecções transmitidas por água ou alimentos contaminados tendem a evoluir de forma mais grave nesse grupo.
No Brasil, dados do DataSUS indicam vulnerabilidade sazonal: em ondas de calor de 2023, houve alta de até 40% em atendimentos de idosos por desidratação em estados como SP, MG e PR. Em 2025, o Hospital Amhemed registrou 1.327 casos só nos primeiros meses do ano, majoritariamente idosos afetados pelo calor intenso. E, no mês de dezembro, SP teve aumento de mais de 27% em atendimentos por insolação e calor, incluindo desidratação.
O calor intenso também favorece a proliferação de bactérias e vírus, aumentando os casos de diarreia e infecções gastrointestinais — condições que aceleram ainda mais a perda de líquidos. Nesses casos, a reidratação imediata é fundamental para evitar complicações.

Água tratada e higiene salvam vidas
O saneamento é responsável pelo aumento da expectativa de vida. Em períodos de calor extremo, sua importância se estende com ainda mais força à população idosa.
Consumir água tratada, filtrada ou fervida, higienizar corretamente frutas e verduras e lavar as mãos com frequência são medidas simples que reduzem significativamente o risco de contaminação.
Além disso, a hidratação diária deve ser planejada. A recomendação média é de cerca de 30 ml de água por quilo de peso corporal por dia — valor que pode aumentar em dias muito quentes.
Calor exige prevenção constante
Usar protetor solar, manter uma alimentação rica em frutas e vegetais (que possuem alto teor de água), evitar bebidas alcoólicas e manter ambientes ventilados são atitudes que ajudam a enfrentar as ondas de calor com mais segurança.
Em um cenário de mudanças climáticas e recordes de temperatura, garantir acesso à água potável e ao saneamento básico não é apenas uma política pública — é uma medida de proteção à vida, especialmente para quem mais precisa de cuidado.
Texto: Ray Santa Cruz
Fotos: Ray Santa Cruz/ Envato
Fontes: G1 – FolhaPress – R7 – SPDM Saúde