Falta de saneamento aumenta risco de morte na infância, alerta médico

Falta de saneamento aumenta risco de morte na infância, alerta médico

A primeira infância — do nascimento aos seis anos — é uma fase decisiva para o desenvolvimento das crianças e, ao mesmo tempo, a mais vulnerável à falta de saneamento básico. Nesse período, o cérebro está em intensa formação, e a ausência de condições adequadas pode gerar impactos que acompanham a criança por toda a vida.

O presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), Edson Liberal, chama a atenção para esse cenário.

“O maior prejuízo é para crianças na primeira infância. Esse período é fundamental para o desenvolvimento físico, cognitivo, emocional e social, com o cérebro em intensa atividade.”

Impactos que vão além da saúde 

A falta de saneamento afeta não só a saúde, mas também a trajetória educacional das crianças. Dados do estudo Futuro em risco: efeitos da falta de saneamento na vida de grávidas, crianças e adolescentes (2024), do Instituto Trata Brasil, mostram que:

  • 6,6 milhões de crianças de até seis anos se afastam de atividades escolares e sociais;
  • mais de 300 mil são internadas todos os anos por doenças relacionadas à falta de saneamento.

Segundo o médico, esse impacto se acumula ao longo da vida.

“Sem saneamento, elas faltam mais às aulas e até abandonam a escola, o que significa um prejuízo gigantesco para o aprendizado e desenvolvimento profissional. Ao mesmo tempo, a exposição prolongada a ambientes insalubres pode causar doenças, infecções crônicas e desnutrição, o que também compromete significativamente o aprendizado.”

A média para quem cresce sem saneamento é de 1,8 ano a menos de escolaridade e perdas significativas de renda na vida adulta, reforçando o ciclo de desigualdade. Na prática, o efeito é cumulativo e aparece tanto na saúde quanto na educação.

Mortalidade infantil 

Além disso, existe a relação direta com a mortalidade infantil no Brasil, um indicador que mede o número de crianças que morrem antes de completar um ano de vida. Dados divulgados neste ano pelo Unicef mostram queda consistente nas mortes de recém-nascidos e crianças de até cinco anos no Brasil nas últimas três décadas. Em 1990, de cada mil nascimentos, 63 não chegavam ao quinto aniversário. Nos anos 2000, a taxa estava em 34 mortes por mil nascidos vivos. Em 2024, chegou a 14,2, uma queda de 77% em relação ao início da série histórica.

Esse índice é considerado um dos principais termômetros das condições de vida de uma população — e está diretamente ligado ao acesso a serviços básicos, como água tratada, coleta de esgoto e saúde básica. Na prática, isso significa que muitas dessas mortes poderiam ser evitadas.

“Milhares de crianças estão crescendo expostas a doenças evitáveis, que comprometem seu bem-estar físico e mental, aumentando casos de morbidade e mortalidade na infância.”

O presidente da SBP reafirma que garantir o acesso universal ao saneamento é uma medida essencial para proteger a infância. 

“Melhorar o saneamento é, sim, uma estratégia fundamental de prevenção em saúde pediátrica, pois reduz a incidência de doenças evitáveis e melhora a qualidade de vida das crianças. O caminho é longo, complexo e exige políticas públicas intersetoriais.”

O médico também explica que vem trabalhando com a categoria pediátrica para reduzir mortes evitáveis e assegurar condições mínimas para o desenvolvimento pleno das próximas gerações. 

A Sociedade Brasileira de Pediatria tem buscado atuar no diálogo com os pediatras para que a saúde ambiental seja abordada nas consultas e se torne rotina.  A instituição também possui três grupos focados nos debates acerca do assunto, que produzem documentos científicos, conteúdos para os pediatras e as famílias.”

Texto: Ray Santa Cruz

Fotos: Acervo Pessoal

Fontes: SBP | Estudo Trata Brasil | Trata Brasil | Mortalidade Infantil

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