Saneamento é o caminho para devolver vida aos rios urbanos

Saneamento é o caminho para devolver vida aos rios urbanos

Historicamente, muitas cidades brasileiras surgiram às margens de rios. Eles forneciam água, serviam como rota de transporte e eram elementos centrais para o desenvolvimento urbano. Com o passar do tempo, porém, essa relação mudou. A afirmação é do engenheiro ambiental e doutor em saneamento, André Luiz Marguti, que dedica suas pesquisas ao desenvolvimento de soluções para a adaptação às mudanças climáticas, para o tratamento de água e esgoto e para a aplicação de Soluções Baseadas na Natureza (SbN).

André Luiz Marguti, engenheiro ambiental, doutor em Saneamento, professor e pesquisador da Poli-USP.
André Luiz Marguti, engenheiro ambiental, doutor em Saneamento, professor e pesquisador da Poli-USP.

Segundo o professor e pesquisador da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP), durante décadas  predominou uma visão higienista do planejamento urbano, que enxergava os rios como o destino mais eficiente para afastar resíduos e esgoto da população. Além disso, muitos cursos d’água foram canalizados, cobertos ou escondidos sob avenidas e galerias subterrâneas. Com isso, deixaram de fazer parte da paisagem cotidiana e passaram a ser vistos apenas como estruturas de drenagem.

“Um rio que você não enxerga é um rio pelo qual você não desenvolve apego nem cuidado. Isso só favorece que ele seja utilizado cada vez mais apenas como um grande transportador de sujeira. Em São Paulo, por exemplo, as marginais eram rios que tinham toda uma curvatura, uma área de várzea. Você acaba mudando toda a característica hidráulica do rio e contribuindo para que ele se torne apenas um grande transportador de lixo.

O impacto invisível da falta de saneamento

A degradação dos rios urbanos está diretamente ligada à ausência de coleta e tratamento adequado de esgoto. Conforme o “Atlas do Esgoto”, da Agência Nacional de Águas (ANA – publicado em 2017), mais de 110 mil km de trechos de rio no Brasil estão com a qualidade comprometida devido ao excesso de carga orgânica.

Como aponta Marguti, o lançamento de matéria orgânica nos corpos d’água provoca a redução do oxigênio dissolvido, o que compromete a fauna e a flora do ecossistema. Com o tempo, esses ambientes perdem sua capacidade de sustentar a vida e se tornam fontes de odores desagradáveis e proliferação de mosquitos, deteriorando a paisagem urbana. Além dos impactos ambientais, a situação afeta diretamente a qualidade de vida da população.

“Com isso, os peixes, as plantas e outros organismos não sobrevivem, e esse rio fica ‘morto’. Ele passa a ser apenas um vetor de doenças, um criadouro de mosquitos com uma paisagem bastante degradada.”

Essas áreas tendem a sofrer desvalorização imobiliária, aumento de problemas sanitários e redução dos espaços de convivência. O que deveria ser um patrimônio natural da cidade passa a representar um risco à saúde pública.

A recuperação dos rios começa pelo saneamento

Se a falta de saneamento está na origem de muitos problemas ambientais, os investimentos no setor também estão entre as principais soluções. Marguti explica que, quando o lançamento de esgoto sem tratamento é reduzido, os rios começam gradualmente a recuperar sua capacidade natural de regeneração. Esse processo, conhecido como autodepuração, permite que a própria dinâmica do ecossistema contribua para melhorar a qualidade da água.

“O rio passa por hidrodinâmica, pela forma como a água se movimenta, e consegue ter uma recuperação natural. Um exemplo é o Tietê. Ele passa por São Paulo e recebe um grande aporte de poluição, até partículas provenientes da poluição atmosférica. No interior, depois de percorrer muitos quilômetros, essa pressão dos lançamentos diminui. Então, ele começa a se recuperar.”

Com o tempo, organismos microscópicos retornam ao ambiente, seguidos por pequenos invertebrados, peixes, aves e outras espécies. Aos poucos, a biodiversidade se restabelece e os rios voltam a desempenhar funções importantes para o equilíbrio ambiental das cidades.

“Quando o rio melhora, não é apenas a água que se recupera. Toda a paisagem urbana ganha qualidade.”

Mais do que infraestrutura

Essa visão integrada também envolve a gestão de resíduos sólidos e da drenagem urbana, temas que se tornam cada vez mais relevantes diante do crescimento das cidades e do aumento dos eventos climáticos extremos.

“O saneamento não deve ser visto apenas como uma forma de afastar resíduos. Estamos falando de recursos que precisam ser geridos e valorizados.”

Reconectar pessoas e natureza dentro das cidades

A recuperação ambiental dos rios urbanos produz benefícios que vão muito além da qualidade da água. Quando um córrego deixa de ser um problema e passa a ser um espaço valorizado, surgem oportunidades para a criação de parques, áreas de lazer e convivência. A população volta a se aproximar dos recursos naturais e passa a perceber o valor desses ambientes no dia a dia.

Essa reconexão também contribui para o bem-estar, para a saúde mental e para a construção de cidades mais sustentáveis.

Texto: Ray Santa Cruz

Fotos: Acervo Pessoal.

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