“Eu não aceitava que aquilo fosse normal.”
Quando Anna Luísa Beserra leu Vidas Secas, não viu literatura. Viu denúncia. Aos 15 anos, estudante de escola pública, filha do Nordeste, ela se perguntou por que o Brasil ainda convivia com a mesma realidade descrita quase um século antes. Hoje, aos 28, com reconhecimento internacional, presença em plataformas da ONU e destaque na UNESCO, ela continua movida pela mesma pergunta: por que algo tão básico ainda não é para todos? Na entrevista a seguir, ela nos conta como tem sido sua jornada.
Você tinha 15 anos. Como foi esse despertar para a ciência e mobilização?
Eu não aceitava que aquilo fosse normal. Não aceitava que a seca fosse destino, que crianças crescessem adoecendo por algo que tem solução. Eu era jovem, não tinha laboratório, não tinha dinheiro. Mas tinha uma pergunta que não me deixava dormir: “Se existe tecnologia para tanta coisa, por que não para isso?” A partir dali, eu não queria só estudar ciência. Eu queria usar a ciência. Eu comecei pesquisando na internet, precisava encontrar algo que fosse viável para uma estudante. Foi aí que descobri o método de desinfecção solar da água com garrafa PET.
Como foi o processo de desenvolvimento das tecnologias?
Com essa ideia simples, de expor a água ao sol por várias horas para que a radiação ultravioleta eliminasse microrganismos, participei do Prêmio Jovem Cientista do CNPq e consegui apoio para estruturar melhor a pesquisa. Fiz protótipos, testei materiais. Foram cerca de dez versões até chegar ao modelo atual. Ajustamos vedação, formato, capacidade de armazenamento e tempo de exposição, que podia chegar a 48 horas. Nessa época, havia questionamentos sobre a liberação de substâncias do plástico a longo prazo. Depois vieram os testes laboratoriais. Hoje temos laudos e validações científicas de universidades federais comprovando a eficácia do tratamento. O tempo médio caiu para cerca de 4 horas. Em alguns casos, 1 hora. E conseguimos tratar volumes maiores, acoplados às cisternas das famílias.
Você começou sem estrutura nenhuma. De onde veio a coragem?
Coragem é uma palavra bonita. Mas, na prática, era uma inquietação. Eu sabia que precisava ser algo simples. Porque, se dependesse de grandes investimentos ou estruturas sofisticadas, nunca chegaria às famílias que mais precisavam. Quando descobri que a radiação ultravioleta do sol podia eliminar microrganismos, aquilo virou uma chave. O Brasil tem sol em abundância. O semiárido tem sol quase o ano inteiro. Então eu pensei: “E se o que falta não for recurso, mas adaptação?”
O que é mais revolucionário na sua tecnologia: a ciência ou a simplicidade?
A simplicidade. O Aqualuz usa algo que sempre esteve ali: o sol. Mas ele transforma esse recurso natural em segurança hídrica. A gente conseguiu reduzir o tempo de tratamento para cerca de 4 horas, aumentar o volume tratado e garantir segurança validada por universidades. Às vezes, inovação não é inventar algo completamente novo. É olhar para o que já existe e perguntar: por que isso ainda não está funcionando para quem mais precisa?
Como o projeto se tornou empresa?
Depois da validação da tecnologia, percebi que precisava de um modelo sustentável. Criamos a SDW (Sustainable Development & Water for All). O modelo funciona principalmente por meio de empresas que investem em impacto social — como mineradoras que atuam em determinadas regiões. Elas contratam nossos projetos como parte do investimento social privado. Nós implementamos as tecnologias, capacitamos as famílias e entregamos dados de impacto para relatórios de sustentabilidade. Hoje temos oito tecnologias no portfólio — duas familiares baseadas na natureza, duas comunitárias com ultramembrana e carvão ativado, além de soluções como banheiro seco, biodigestores e wetlands. Já implantamos mais de 2,8 mil tecnologias e beneficiamos cerca de 46 mil pessoas.
Você enfrentou resistência por ser jovem? Por ser mulher?
Muito. As pessoas não acreditavam no tratamento da água por meio do sol. E acreditavam menos ainda em mim. Eu chegava à casa das famílias dizendo que aquela água poderia ser tratada com luz solar e via no olhar delas: “Essa menina não sabe o que está dizendo.” Eu precisava provar duas vezes: provar que a tecnologia funcionava e provar que eu era capaz. Isso me ensinou que inovação social não é só sobre tecnologia: é sobre construir confiança. A tecnologia precisa vir acompanhada da escuta. Hoje, nosso trabalho é tão educativo quanto técnico. A gente conversa sobre saúde, desenvolvimento infantil, renda, futuro. Porque saneamento não é só infraestrutura, é transformação social.
O que muda na vida de uma mulher quando a água chega?
Muda tudo. Em muitas comunidades, são as mulheres que administram a água da casa e, às vezes, caminham quilômetros para buscá-la. Quando a água é contaminada, quem cuida da criança doente geralmente é a mãe. Se ela é mãe solo, significa menos renda, instabilidade e exaustão. Água tratada reduz doenças, a falta na escola e no trabalho. Aumenta a produtividade e a autoestima. Eu já vi mulheres dizendo: “Agora eu posso trabalhar tranquila.” Isso é independência.
Você foi premiada pela ONU, reconhecida globalmente. O que você sentiu quando percebeu que sua ideia tinha atravessado fronteiras?
Senti responsabilidade. Porque quando uma menina nordestina aparece em um site da ONU ou da UNESCO, ela deixa de ser só ela. Ela vira símbolo. E eu quero que outras meninas vejam isso e entendam: você não precisa sair da sua realidade para transformá-la. Eu comecei com 15 anos. Sem estrutura, sem contatos e sem dinheiro. Mas com propósito.
O que ainda te move depois de 13 anos?
A indignação continua. Vivemos em um mundo altamente tecnológico. Falamos de inteligência artificial, de exploração espacial, mas ainda existem milhões de pessoas sem acesso à água tratada. Isso não é falta de tecnologia. É falta de prioridade. E, enquanto isso existir, meu trabalho continua.

Mais sobre Anna Beserra
Biotecnologista formada pela Universidade Federal da Bahia e fundadora da SDW (Sustainable Development & Water for All), Anna desenvolve tecnologias sociais para tratamento de água no semiárido brasileiro. É reconhecida internacionalmente, vencedora do Prêmio Jovens Campeões da Terra, da ONU, e já figurou em listas como Forbes Under 30. Com mais de 2,8 mil tecnologias implantadas, seu trabalho já beneficiou cerca de 46 mil pessoas em comunidades vulneráveis. Atua na interseção entre ciência, impacto social e empreendedorismo feminino.