Blue Keepers: dados do lixo ajudam a proteger mangues, rios e oceanos

Blue Keepers: dados do lixo ajudam a proteger mangues, rios e oceanos

Todo lixo tem uma história. Uma garrafa plástica encontrada em uma praia pode ter sido descartada a quilômetros dali. Um brinquedo preso no manguezal pode ter saído de uma casa, atravessado galerias de drenagem e percorrido um rio inteiro. É justamente esse caminho que o Blue Keepers quer entender. O programa do Pacto Global da ONU – Rede Brasil estuda por onde o lixo viaja, de onde ele vem e como essas informações podem ajudar cidades, empresas e governos a evitar que resíduos cheguem aos ambientes aquáticos. 

Essa estratégia tem colocado a ciência, o saneamento, a gestão de resíduos e a educação ambiental no centro do combate à poluição hídrica. Ao mapear o perfil dos materiais encontrados em diferentes ecossistemas, o Blue Keepers ajuda a desenvolver ações específicas para cada realidade, reduzindo o vazamento de resíduos sólidos nos corpos d’água.

O lixo como diagnóstico

Criado há cinco anos, o Blue Keepers tem um objetivo: entender como e por onde o lixo chega aos ecossistemas aquáticos brasileiros. São realizadas coletas padronizadas em praias, rios, lagoas e manguezais. Os materiais são classificados e passam a integrar um inventário nacional, que orienta ações de prevenção e mitigação da poluição.

Segundo Gabriela Otero, gerente de Água, Oceano e Resíduos do Pacto Global da ONU – Rede Brasil, o trabalho vai muito além da limpeza dos ambientes naturais.

“O Blue Keepers foi criado para mobilizar o setor empresarial na prevenção e mitigação dos impactos da poluição por plásticos. A partir de estudos científicos, desenvolvemos um mapa georreferenciado das cidades com maior risco de escape de resíduos para o meio ambiente. Com esse diagnóstico, fomos a campo para entender o perfil dos resíduos e pensar soluções para cada território.”

Hoje, o programa atua em 24 municípios brasileiros, de Manaus (AM) a Porto Alegre (RS), passando por cidades do Nordeste, do Distrito Federal, de Minas Gerais e do litoral paulista e fluminense.

O que os dados revelam

O Inventário Nacional de Resíduos, entre 2022 e 2024, classificou cerca de 55 mil itens retirados de ambientes aquáticos brasileiros. Entre os resíduos mais frequentes estão plásticos, bitucas de cigarro e fragmentos de isopor. O lixo encontrado na natureza não tem uma única origem. 

Cada lugar pede uma solução

Nas áreas de manguezal, por exemplo, os resíduos costumam refletir problemas estruturais das cidades. São encontrados produtos de limpeza, roupas, calçados, brinquedos e cosméticos — um perfil característico de lixo domiciliar.

“Isso evidencia deficiência de infraestrutura, saneamento e gestão de resíduos em áreas vulneráveis. Além disso, o manguezal funciona como uma barreira natural onde materiais trazidos pela maré acabam ficando presos nas raízes”, explica Gabriela Otero.

Já em praias e lagoas, a composição do lixo costuma estar mais relacionada ao turismo e ao comportamento dos frequentadores. Esse diagnóstico muda completamente a forma de enfrentar o problema. 

Ação e projetos

Não existe uma solução única. Os dados coletados pelo Blue Keepers servem como base para projetos que unem preservação ambiental, inclusão social e gestão de resíduos.

Dependendo do resíduo encontrado, pode ser necessário investir em infraestrutura e grandes obras, mas a comunicação também é uma solução importante em comunidades. O mesmo vale para a educação ambiental, que permite aos moradores enxergarem que uma embalagem jogada no mangue prejudica a pesca ou que o isopor na beira do rio pode prejudicar o bioma.

Para Gabriela, o cidadão deve fazer sua parte, mas o poder público precisa ser cobrado. 

“Se eu gero resíduos, preciso fazer a destinação adequada, me informar sobre a coleta seletiva disponível, realizar a separação correta dos materiais e conhecer o sistema de gestão urbana do meu município. No nível da informação, precisamos esgotar todas as possibilidades de conhecimento. E, no nível da ação, precisamos cobrar ações concretas.”

As pequenas empresas e os grandes geradores de lixo também devem fazer sua parte, compreendendo o papel de seus negócios e gerindo seus resíduos de maneira que não prejudique o ambiente. 

Texto: Ray Santa Cruz

Fotos: Envato 

Fontes: Inventário Nacional de Resíduos | Cátedra UNESCO| Pacto Global

MATÉRIAS
RELACIONADAS

O que cada um de nós pode fazer pelo meio ambiente no dia a dia

O elo invisível entre bactérias resistentes, esgoto e meio ambiente

Alexander Turra explica como a saúde dos oceanos afeta a nossa vida