Cidade-esponja: menos concreto e mais verde para reduzir enchentes

Cidade-esponja: menos concreto e mais verde para reduzir enchentes

A chuva termina, mas seus efeitos permanecem por dias em muitas cidades brasileiras. Ruas alagadas, córregos sobrecarregados e água carregando lixo revelam um desafio que vai além da drenagem convencional. Eliminar o concreto faz parte do conceito de “cidade-esponja”, modelo que aposta na própria natureza para reduzir enchentes, melhorar a qualidade da água e recuperar ecossistemas degradados.

Conhecidas como Soluções Baseadas na Natureza (SbN), essas estratégias para reduzir os impactos das mudanças climáticas vêm ganhando espaço em projetos urbanos e costeiros ao combinar infraestrutura verde, saneamento e restauração ambiental. 

Jardins de chuva, biovaletas, telhados verdes, casas sem concreto e a recuperação de florestas já deixaram de ser apenas conceitos acadêmicos para integrar políticas públicas de cidades-esponjas.

Cidade-esponja

O princípio é simples: impedir que toda a água da chuva seja conduzida rapidamente para galerias e rios, reduzindo enchentes.

“Cidade-esponja” é uma concepção bem difundida na China e vem inspirando cidades pelo mundo. Os jardins de chuva são áreas vegetadas planejadas para captar parte da água das precipitações, permitindo sua infiltração no solo. Além de reduzir o volume que chega aos sistemas de drenagem, essas estruturas filtram parte dos poluentes transportados pelo escoamento superficial e contribuem para amenizar as ilhas de calor urbanas.

No Brasil, Belo Horizonte (MG) já possui 66 jardins em funcionamento. A medida é uma das ferramentas para amenizar enchentes e foi implantada em locais como o Parque Lagoa do Nado, o Parque JK, a Praça José de Magalhães e áreas do hipercentro.

Cidades como BH estão quebrando concretos e construindo jardins de chuva para evitar enchentes.
Cidades como BH estão quebrando concretos e construindo jardins de chuva para evitar enchentes.

Na capital do Paraná, Curitiba, agora é lei: desde janeiro de 2026, a cidade passa a adotar oficialmente uma série de Soluções Baseadas na Natureza para reduzir enchentes e alagamentos. A legislação atualizou a política ambiental do município e introduziu medidas como jardins de chuva, valas verdes, canteiros pluviais e parques lineares.

Em Salvador (BA), um ponto de ônibus recebeu telhado verde, com plantas e jardim suspenso. Já em São José dos Campos (SP), uma biovaleta que funciona como canal vegetal para desacelerar o fluxo da água foi instalada perto de um terminal de ônibus. A ideia é reduzir o impacto das enxurradas.

Segundo o doutor e engenheiro ambiental da Universidade de São Paulo (USP) André Luiz Marguti, esse controle da água na origem é um dos principais diferenciais das SbN.

“São soluções que atuam no controle da drenagem, retendo a água da chuva na fonte. Por meio de biovaletas, jardins de chuva e áreas alagadas planejadas, conseguimos conter parte desse volume, fazendo com que os picos de cheia não atinjam os rios de forma tão intensa. A água chega muito mais amortecida aos cursos d’água.”

Outra tecnologia que começa a ganhar espaço é a dos wetlands construídos (do inglês, “terras molhadas”), sistemas projetados como lagoas, pântanos e canais rasos que abrigam plantas aquáticas. O método utiliza a vegetação, o solo e microrganismos para tratar esgoto ou águas residuais de forma descentralizada. A microbiota desse sistema atua como um biofiltro, eliminando as impurezas da água — um processo parecido com o que ocorre em um manguezal.

Para o pesquisador, essas estruturas também exercem um papel importante no controle da qualidade da água.

“Nos processos de infiltração e filtração, essas soluções podem atuar no tratamento da água da chuva e reduzir a poluição difusa. Assim, quando essa água chega ao rio, apresenta uma qualidade melhor e contribui para sua recuperação ambiental.”

 Projetos sustentáveis ainda são poucos no Brasil.
Projetos sustentáveis ainda são poucos no Brasil.

Sair do concreto e voltar à natureza

Aos poucos, as populações urbanas percebem que nem tudo é concreto e grandes obras. Cada vez mais, o conceito de que a natureza e as florestas estão em tudo e fazem parte do cotidiano é aceito.

Marguti defende que essa visão integrada precisa orientar as políticas públicas, principalmente no que diz respeito à preservação e ao saneamento.

“Precisamos enxergar o saneamento de maneira integrada, não apenas nas soluções de água e esgoto, mas também considerando resíduos sólidos e drenagem; usar nas cidades Soluções Baseadas na Natureza, pois o objetivo não deve ser apenas afastar esses elementos, mas compreender que estamos falando de recursos que precisam ser melhor controlados e valorizados.”

Segundo ele, os impactos positivos extrapolam a área ambiental.

“Existe aquela máxima da Organização Mundial da Saúde de que cada real investido em saneamento gera uma economia de quatro reais em serviços de saúde. O saneamento vai muito além de resolver uma questão ambiental. Seus benefícios alcançam a saúde pública, o desenvolvimento socioeconômico e a proteção dos recursos hídricos.”

O próximo passo

O maior desafio continua sendo ampliar a escala dessas iniciativas nos municípios. No Brasil, os projetos ainda são experiências locais, enquanto eventos extremos se tornam mais frequentes em praticamente todas as regiões do país.

Ao integrar Soluções Baseadas na Natureza à drenagem urbana, se devolve o espaço à água. Isso fortalece os ecossistemas e representa uma resposta mais eficiente, resiliente e duradoura para cidades cada vez mais expostas às mudanças climáticas.

Texto: Ray Santa Cruz

Fotos: Envato e imagens criadas por IA.

Fontes: National Geographic |Brasil Escola  | Prefeitura BH | Wetlands | Lei em Curitiba

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