Economia do mangue: lixo reduz a renda de catadores de caranguejo

Economia do mangue: lixo reduz a renda de catadores de caranguejo

Um pneu abandonado no manguezal pode parecer apenas mais um símbolo do descarte irregular de lixo. Para quem vive da coleta de caranguejos e da pesca artesanal, porém, ele representa muito mais: significa menos alimento, menos renda e menos oportunidades de trabalho. Nos manguezais do Rio de Janeiro (RJ), o lixo deixou de ser apenas um problema ambiental para se tornar uma ameaça direta à economia das comunidades tradicionais.

A relação é simples. Quando resíduos sólidos ocupam o espaço onde a fauna vive e se reproduz, a biodiversidade diminui e, com ela, a capacidade do manguezal de sustentar famílias que dependem de seus recursos naturais. A explicação é do articulador socioambiental e ativista Pedro Belga. 

“Esses resíduos sólidos são uma barreira física para a biodiversidade, porque onde tem um sofá não tem toca de caranguejo; onde tem um pneu não tem toca de caranguejo. Isso não é uma frase minha, é a frase de um catador de caranguejo, do Adílio Campos. Foi ele quem nos chamou a atenção para esse processo de limpeza do manguezal.”

Economia ameaçada

Muito além da paisagem degradada, o acúmulo de resíduos compromete toda uma cadeia econômica ligada ao manguezal. Quando há menos tocas — os locais de abrigo dos animais —, a população de caranguejos diminui. Com isso, cai também a oferta de um dos principais recursos que sustentam a bioeconomia das comunidades costeiras.

Segundo Belga, o problema não se restringe ao caranguejo. A perda da cobertura vegetal, a degradação do ambiente e o acúmulo de resíduos afetam peixes, crustáceos e outros organismos que dependem do manguezal para sobreviver. O impacto chega diretamente aos pescadores artesanais e às comunidades ribeirinhas, que passam a conviver com menor produção e redução da renda.

“Quando diminui a quantidade de tocas do caranguejo-uçá, que é um dos principais insumos da bioeconomia, você diminui também a quantidade de trabalhadores que vão sobreviver disso.”

Pedro Belga trabalha há décadas na recuperação de manguezais e no auxílio a pescadores.
Pedro Belga trabalha há décadas na recuperação de manguezais e no auxílio a pescadores.

Limpeza que gera renda

Foi diante dessa realidade que a organização Guardiões do Mar, da qual Pedro Belga faz parte, passou a investir na recuperação dos manguezais. Desde 2012, a instituição atua no plantio de mangue e na retirada de resíduos sólidos. Uma das iniciativas é a Operação Limpa-Oca, que já envolveu mais de 600 pescadores do Recôncavo da Baía de Guanabara em ações de pagamento por serviços ambientais.

Na prática, durante uma ou duas manhãs por semana, os pescadores deixam temporariamente a coleta de caranguejos para retirar resíduos acumulados nos manguezais, recebendo por esse trabalho. Segundo Belga, a iniciativa já retirou mais de 150 toneladas de resíduos sólidos de pouco mais de 60 hectares de manguezais. Além de remover obstáculos físicos à fauna, a limpeza contribui para recuperar áreas essenciais para a reprodução de diversas espécies.

Recuperar o mangue é recuperar a produção

Restaurar um manguezal significa muito mais do que plantar árvores, segundo Pedro Belga. As áreas recuperadas passam a oferecer melhores condições para a fauna, ampliam a cobertura vegetal e fortalecem a produção natural que sustenta milhares de famílias.

“As áreas que foram restauradas e limpas por nós contribuem para a sociobiodiversidade e para a socioeconomia, porque têm mais produção e biodiversidade, além de aumentarem a cobertura vegetal e a densidade populacional desses animais, que são os principais insumos da sociobioeconomia.”

Mas não basta só plantar mangue e não basta só limpar o manguezal. É preciso que o saneamento aconteça nas cidades do entorno para que essa poluição não chegue ao ecossistema.

Texto: Ray Santa Cruz

Fotos: Guardiões do Mar

Fontes: Guardiões do Mar | Rede Nós da Guanabara  | Ocean Pact

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