Quando pensamos em meio ambiente, é comum imaginar florestas distantes, oceanos, montanhas e áreas preservadas ou paisagens intocadas. Mas essa visão deixa de lado um aspecto fundamental: o meio ambiente também está nas cidades.
Ele está na praça do bairro, nas árvores das ruas, na chuva que cai sobre o asfalto, nos rios que cruzam os centros urbanos, na água que chega todos os dias à maior parte das residências brasileiras e até no esgoto produzido diariamente dentro de casa, que pode, ou não, impactar a natureza. Está presente, inclusive, nas decisões que tomamos a cada instante.
Essa conexão entre as pessoas e o ambiente urbano é essencial para enfrentar os desafios ambientais atuais, segundo o professor e pesquisador da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP) André Luiz Marguti. Biólogo e doutor em Saneamento, ele afirma que a forma como consumimos água, descartamos o esgoto e os resíduos sólidos e ocupamos os espaços urbanos tem impacto direto na qualidade ambiental das cidades.
Segundo o especialista, o crescimento urbano transformou a relação das pessoas com a natureza. Ao longo das últimas décadas, rios foram canalizados, áreas verdes diminuíram e os processos naturais passaram a ser vistos como obstáculos ao desenvolvimento urbano.
“As cidades cresceram ao redor dos rios e transformaram esses espaços em canais de esgoto e áreas degradadas, o que levou à forma como vemos as cidades hoje. A isso se soma toda a questão de tapar esses rios, cobri-los, colocá-los em galerias e canalizações. Eles deixam de fazer parte da paisagem que enxergamos. E um rio que você não enxerga é um rio pelo qual você não tem apego, não tem cuidado.”
Reconectar pessoas e natureza dentro das cidades
O resultado é percebido em situações cada vez mais frequentes, como enchentes, ilhas de calor, perda de biodiversidade e degradação da qualidade da água. Por outro lado, cidades que investem em saneamento, preservação ambiental e infraestrutura verde conseguem construir ambientes mais saudáveis, resilientes e preparados para enfrentar os efeitos das mudanças climáticas.
Nesse contexto, o saneamento exerce um papel estratégico. Além de garantir saúde pública, ele contribui para a proteção dos recursos hídricos, para a recuperação ambiental e para a melhoria da qualidade de vida da população. Quando um córrego deixa de ser um problema e passa a ser um espaço valorizado, surgem oportunidades para a criação de parques, áreas de lazer e convivência. A população volta a se aproximar dos recursos naturais e passa a perceber o valor desses ambientes no dia a dia.
Conexão com a natureza e saúde mental
Essa reconexão também contribui para o bem-estar, para a saúde mental e para a construção de cidades mais sustentáveis. Em um momento em que o mundo discute os desafios ambientais e climáticos, a mensagem deixada pelo pesquisador é clara: o meio ambiente não está distante. Ele faz parte da rotina de cada pessoa, da água consumida diariamente aos rios que cruzam os centros urbanos.
“O saneamento é isso. Precisamos enxergá-lo de maneira integrada, não apenas nas soluções de água e esgoto, mas também considerando resíduos sólidos e drenagem. O objetivo não deve ser apenas afastar esses elementos, mas compreender que estamos falando de recursos que precisam ser melhor controlados e valorizados.”
Texto: Ray Santa Cruz
Fotos: Acervo Pessoal.