Veja como esgoto sem tratamento afeta a educação

Veja como esgoto sem tratamento afeta a educação

Há crianças que chegam à escola depois de enfrentar uma rotina que pouco tem a ver com cadernos, provas ou tarefas. Antes de se sentarem na sala de aula, algumas precisam conviver com doenças recorrentes, falta de água e condições precárias de higiene. Quando o saneamento não acompanha a infância, aprender pode se tornar mais difícil muito antes de a criança perceber o motivo.

O tempo que a doença tira

Em comunidades sem esgoto tratado, o calendário escolar pode ser interrompido várias vezes por problemas de saúde. Um estudante que falta repetidamente não perde apenas um dia de aula. Quando os episódios se acumulam, também há quebra na continuidade no processo de aprendizagem.

Para o pediatra Rinaldo Fábio Souza Tavares, presidente do Departamento Científico de Toxicologia e Saúde Ambiental da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), o problema se agrava quando a ausência deixa de ser pontual e passa a interferir na rotina escolar.

“Crianças que vivem em áreas sem saneamento adoecem com muito mais frequência. Elas podem apresentar duas a três vezes mais episódios de diarreia e parasitoses do que aquelas que vivem em áreas com cobertura adequada de saneamento e água potável. Cada episódio pode resultar, muitas vezes, em três a sete dias de ausência escolar. Quando isso se repete ao longo do ano, uma criança pode ter de cinco a dez episódios e perder cerca de 20% a 30% do período letivo.”

O afastamento também pode acontecer de outras formas. Em regiões onde não há água disponível de maneira regular, os mais novos podem participar da busca pelo recurso para o próprio domicílio. O tempo gasto nessa tarefa compete com horas de estudo, descanso e lazer.

O peso da desigualdade

A falta de saneamento não atinge todas as crianças da mesma maneira. Nas comunidades mais vulneráveis, a ausência de água e esgoto tratados pode se somar a outras dificuldades enfrentadas pelas famílias.

As meninas também podem ser afetadas de maneira particular. A consequência pode aparecer anos depois, quando uma sequência de faltas, dificuldades e interrupções se transforma em abandono escolar. Para Tavares, esse processo precisa ser compreendido como parte de uma cadeia de fatores relacionados ao saneamento.

“Também existe a responsabilidade pelo cuidado dentro da família. As meninas são especialmente afetadas nesse contexto de saneamento precário. Muitas vezes, o cuidado com crianças menores ou com irmãos doentes recai sobre as filhas mais velhas, provocando novas ausências e prejuízos à sua própria trajetória escolar. Por isso, a evasão escolar tende a ser maior em áreas carentes de saneamento e água potável. Muitas crianças vão acumulando faltas e dificuldades ao longo dos anos e acabam abandonando a escola.”

Veja o exemplo de escolas do Pará na busca por oferecer saneamento aos alunos, clicando aqui.

Cansaço também entra na sala

Mesmo quando a criança consegue estar na escola, as condições em que vive podem comprometer a sua capacidade de acompanhar as atividades. A desnutrição e a anemia estão entre os fatores citados pelo pediatra como capazes de interferir no desenvolvimento cerebral. A repetição das doenças e as deficiências nutricionais podem afetar funções necessárias para o aprendizado e dificultar a permanência em uma rotina escolar.

“A desnutrição crônica e a anemia podem provocar prejuízos ao desenvolvimento cerebral, reduzindo a capacidade de atenção, memória, raciocínio e resolução de problemas. Mesmo nos dias em que comparecem à escola, elas podem estar mais cansadas e com menor capacidade de concentração. Isso gera dificuldades escolares que, somadas ao absenteísmo, podem aumentar ainda mais o risco de abandono escolar.”

Quando faltas, cansaço e dificuldades de aprendizagem se acumulam, a escola passa a disputar espaço com problemas que deveriam ser enfrentados por políticas públicas de saúde, saneamento e proteção social.

Direito que acompanha a criança

A escola não consegue corrigir sozinha os efeitos de uma infância marcada pela falta de uma infraestrutura básica. O direito ao saneamento está ligado ao direito à educação porque os dois atravessam a mesma trajetória. 

“Todos esses efeitos estão interligados. Não são problemas separados. Por isso, é importante ter essa relação em mente quando avaliamos os impactos da falta de saneamento básico e de água potável sobre a educação.”

Garantir água, banheiros, higiene e esgotamento sanitário nas escolas não resolve sozinho as desigualdades educacionais. Mas retirar essas barreiras significa permitir que mais crianças tenham condições básicas para permanecer nas salas de aula, aprender e chegar à vida adulta com mais possibilidades de desenvolver seu potencial.

Texto: Ray Santa Cruz

Edição de conteúdo: Rosiney Bigattão

Fotos: Imagem criada por IA

Fontes: UNICEF | SBP

MATÉRIAS
RELACIONADAS

Pacto Global da ONU alerta para importância do esgoto tratado

Esgoto: para onde vai a água depois que ela desce para o ralo?

Falta de banheiro ainda afeta 4,4 milhões de pessoas, diz Trata Brasil