Pouca gente sabe, mas existem apenas três mangues de pedra conhecidos no mundo. Dois estão no Brasil: um em Armação dos Búzios (RJ) e outro no Recife (PE). O terceiro fica no Japão. Entre pedras, cascalhos e areia, o manguezal de Búzios desafia a lógica da natureza ao sobreviver sem a presença de rios. Alimentado por águas subterrâneas provenientes da infiltração das chuvas, o ecossistema forma um dos ambientes costeiros mais raros, curiosos e cientificamente valiosos do planeta.
O encontro dessas águas subterrâneas com o mar forma a água salobra, condição essencial para o desenvolvimento da vegetação típica de manguezal em um ambiente incomum. Localizado entre a Ponta do Pai Vitório e a Praia da Gorda, o Mangue de Pedra de Búzios também funciona como um importante berçário natural para diversas espécies marinhas e desperta o interesse de pesquisadores, estudantes e visitantes.
Um laboratório natural
Segundo o secretário municipal de Clima e Sustentabilidade de Búzios, o biólogo Evanildo Nascimento, o ecossistema reúne características que o tornam um patrimônio ambiental de valor científico e ecológico singular.
“O mangue de pedra é um ecossistema raríssimo e único. Para a nossa cidade, ele representa muito mais do que uma paisagem preservada. É um berçário marinho onde diversas espécies importantes da cadeia alimentar encontram condições para se reproduzir, como raias, tubarões, garoupas, badejos, lagostas e diversos crustáceos. Além dessa riqueza biológica, sua formação geográfica e geológica é considerada única. Estamos falando de uma verdadeira pérola de Armação dos Búzios, um laboratório natural que precisa ser conhecido, estudado e preservado.”
O diferencial desse ambiente está justamente na forma como a água chega até ele. Sem rios desaguando na costa, toda a dinâmica depende da infiltração da chuva nas áreas mais elevadas. Essa água vai sendo sugada pela terra e alimentando os aquíferos subterrâneos que, por sua vez, afloram próximos à praia, formando o mangue de pedra.

Água que vem do subsolo
A preservação desse processo natural depende diretamente da conservação do solo e das áreas ao redor do manguezal. Alterações na paisagem podem comprometer o fluxo da água subterrânea, responsável pela manutenção do ecossistema.
“Durante os períodos chuvosos, a água infiltra nas encostas, forma microbacias naturais e alimenta os aquíferos subterrâneos. Ela percorre o subsolo até emergir na praia, onde se mistura à água do mar e mantém vivas as plantas típicas do manguezal. Por isso, esse ambiente precisa permanecer o mais natural possível. A ocupação desordenada e a impermeabilização do solo podem interromper esse processo, comprometendo um ecossistema extremamente sensível.”

Proteção e saneamento
Para o secretário, a principal ameaça ao mangue de pedra é o avanço da ocupação urbana irregular nas áreas localizadas ao redor do ecossistema. A prefeitura estuda ampliar a proteção da região por meio de uma unidade de conservação de proteção integral. Nascimento também defende que a universalização do saneamento é parte essencial dessa estratégia de preservação.
“Precisamos proteger não apenas o manguezal, mas todo o seu entorno. A expansão urbana irregular, a impermeabilização do solo e a falta de infraestrutura adequada representam riscos para as águas subterrâneas que alimentam esse ambiente. A implantação da rede separativa de esgoto e a universalização da coleta e do tratamento de esgoto na região da Grande Rasa são fundamentais para reduzir impactos ambientais e garantir a conservação desse patrimônio natural para as próximas gerações.”
Além das ações de fiscalização e de planejamento ambiental, o município também investe em educação ambiental e na aproximação das comunidades tradicionais com as unidades de conservação.

O mangue de pedra depende de processos invisíveis aos olhos. A água que brota do subsolo, a vegetação adaptada às condições salobras e a diversidade de espécies transformam esse pequeno trecho do litoral de Búzios em um patrimônio natural que ainda guarda muitos segredos. Trabalhar para a sua conservação é essencial para manter esse ecossistema vivo.
“Queremos que pescadores, marisqueiras, quilombolas e moradores do entorno se sintam parte desse patrimônio. A melhor forma de proteger um ambiente tão raro é fazer com que as pessoas o conheçam e compreendam seu valor. Nosso objetivo é fortalecer uma cultura de pertencimento e formar verdadeiros guardiões do mangue de pedra”, finaliza.
Texto: Ray Santa Cruz
Fotos: Imagem criada por IA/Acervo pessoal Evanildo Nascimento
Fontes: Gov RJ |Globo | The IUGS Initiative on Forensic Geology