A mulher é protagonista do saneamento, diz Deise Coelho

A mulher é protagonista do saneamento, diz Deise Coelho

As mudanças provocadas pelo acesso ao saneamento começam dentro de casa — e, muitas vezes, pelas mãos das mulheres. São elas que lidam com a falta de água, cuidam da saúde da família e enfrentam diretamente os impactos da ausência de esgoto tratado. Para a engenheira civil Deise Coelho, essa realidade revela algo que muitas políticas públicas ainda ignoram: as mulheres têm um papel central na forma como o saneamento é vivido e cuidado no cotidiano das famílias — especialmente em territórios mais vulneráveis, onde os desafios são maiores.

Trajetória marcada pelo saneamento em comunidades vulneráveis

Com mais de quatro décadas de experiência no setor, Deise construiu uma trajetória dedicada ao saneamento básico e projetos com impacto na socioeconomia, atuando em diferentes contextos — de grandes cidades a territórios socialmente vulneráveis, incluindo favelas e comunidades isoladas. Ao longo da carreira, participou de projetos no Brasil e no exterior, atuando desde o planejamento de sistemas de água e esgoto até processos complexos de reassentamento involuntário e urbanização de favelas.

A vivência em campo, especialmente em territórios com maiores desafios socioeconômicos, contribuiu para aprofundar sua percepção sobre um desafio recorrente no setor: muitas vezes as redes são implantadas, mas as casas não se conectam aos sistemas. Foi a partir dessa constatação que ela passou a defender o conceito de conectividade efetiva, segundo o qual as soluções técnicas só cumprem seu papel quando dialogam com a realidade física, econômica e social das famílias.

Foi dessa convicção que nasceu a Almerindas Saneamento, empresa criada em 2023 com uma proposta clara: desenvolver soluções técnico-sociais que garantam que o saneamento chegue, de fato, às casas — especialmente em áreas onde o serviço historicamente não chega.

O nome é inspirado em Almerinda, moradora de uma favela na zona norte do Recife e mãe de quatro filhos, que marcou profundamente a vida da engenheira. É a história de luta dessa mulher — e de tantas outras que enfrentam diariamente os desafios da falta de infraestrutura — que agora ela busca honrar e transformar em inspiração para o seu trabalho. Em entrevista ao Saneamento Salva, Deise fala sobre a importância da mulher no saneamento, os desafios da conexão das casas às redes de esgoto e como sua trajetória profissional a levou a criar uma empresa voltada para transformar essa realidade.

Por que a mulher é a protagonista do saneamento?

É ela quem sente diretamente os impactos da falta de saneamento dentro de casa. Nas comunidades, a mulher geralmente é quem cuida dos filhos, da higiene da casa e da alimentação da família. Quando falta água ou quando o esgoto corre a céu aberto, é ela quem enfrenta essas consequências no dia a dia. Quando uma criança adoece por causa de água contaminada ou por contato com esgoto, é a mãe que leva ao posto de saúde. Quando falta água, é quase sempre a mulher que vai buscá-la. Por isso ela entende muito rapidamente a importância do saneamento. Não é uma percepção teórica, é uma experiência vivida.

Como essa realidade influencia as soluções para levar saneamento às comunidades?

Influencia muito. Muitas vezes os projetos são pensados apenas do ponto de vista técnico, mas cada território tem uma realidade própria. Existem questões econômicas, físicas, urbanísticas e sociais que dificultam, por exemplo, que uma casa se conecte à rede de esgoto. Há situações em que a casa encontra-se abaixo do nível da rua onde a rede foi implantada, o que impede a ligação por gravidade. Em outros casos, as casas são geminadas ou muito compactas, com o banheiro localizado no fundo do lote, o que torna a ligação mais complexa e pode exigir intervenções nas instalações internas.. Sem entender essas condições concretas do território e das moradias, a conexão simplesmente não acontece. Por isso defendemos uma abordagem integrada, que combine engenharia, trabalho social e diálogo com a comunidade para construir soluções viáveis em cada contexto.

Um dos focos da Almerindas é justamente aumentar a conexão das casas à rede de esgoto. Por que isso ainda é um desafio?

Porque construir a rede não significa que as casas estarão conectadas. Esse é um problema recorrente em várias cidades do país. Muitas vezes a família considera que o problema já foi resolvido porque conseguiu afastar o esgoto da casa, lançando-o em uma vala ou em um córrego. Em outras situações, a ligação exige obras dentro do imóvel, que a família não tem condições de realizar. Por isso trabalhamos com o conceito de conectividade efetiva, que significa garantir que os domicílios estejam realmente ligados à rede. Isso começa com algo fundamental: conhecer a realidade do território e das moradias, porque é essa realidade que orienta as soluções técnicas necessárias para viabilizar a conexão. Esse processo envolve diagnóstico integrado, comunicação com a comunidade e soluções adaptadas a cada contexto. Hoje também utilizamos ferramentas digitais e plataformas de inteligência territorial que permitem mapear cada domicílio, identificar obstáculos à ligação e acompanhar o avanço das conexões de forma transparente para gestores e operadores do sistema. Não existe solução única para todos os territórios — a realidade de cada lugar é que orienta a engenharia necessária

O saneamento exige uma abordagem integrada entre o técnico e o social?

A nossa proposta é justamente essa: trabalhar o saneamento de forma completa. Desenvolvemos estudos e projetos para sistemas de abastecimento de água e esgotamento sanitário, tanto para cidades quanto para comunidades vulneráveis, e ao mesmo tempo integramos o trabalho social e a comunicação com a população. Isso significa explicar como funciona o sistema, quais são os benefícios da ligação à rede e quais adaptações podem ser necessárias dentro das casas. Quando engenharia e participação social caminham juntas, a adesão da população acontece de forma muito mais consistente. Temos desenvolvido projetos com a Aegea em Timon e no Rio de Janeiro com essa abordagem integrada. Nosso foco é encontrar soluções por meio de uma metodologia técnico-social, baseada em um princípio simples: ninguém pode ficar para trás. Soluções existem para praticamente todos os contextos. O que é preciso é entender que a realidade de cada território orienta a solução técnica. E isso exige sair do escritório, pisar no chão do território, dialogar com as pessoas e compreender, de forma estruturada e com método, como as famílias vivem e quais são os obstáculos reais para a conexão ao sistema.

Capacitar mulheres para trabalhar no setor é uma das iniciativas? 

Sim, a ideia é formar mulheres para atuar em pequenas obras e melhorias dentro das casas, especialmente nas adaptações necessárias para conectar os imóveis à rede de esgoto. Essas intervenções intradomiciliares muitas vezes são o principal obstáculo para a conexão. Ao capacitar mulheres da própria comunidade, conseguimos resolver problemas técnicos e, ao mesmo tempo, gerar renda local. Além disso, essas mulheres passam a atuar como multiplicadoras do saneamento, ajudando outras famílias a entender a importância do sistema, o uso adequado e seu dever sobre o uso consciente da água e destino adequado do lixo. Estamos atualmente estruturando um curso para capacitar moradoras da zona norte de São Paulo e de Guarulhos, a partir das obras do Programa Integra Tietê, justamente com esse objetivo.

Depois de mais de quatro décadas no setor, o que a motivou a criar sua própria empresa?

Aos 60 anos eu senti que era hora de virar uma chave na minha vida profissional. Sempre trabalhei com saneamento e com projetos que envolvem pessoas, comunidades e territórios vulneráveis. Eu queria criar algo que reunisse essa experiência técnica com um olhar mais humano para o saneamento. A Almerindas nasce justamente dessa vontade de desenvolver soluções que considerem a realidade das pessoas e que ajudem a garantir que o saneamento chegue, de fato, às casas.

Qual é a história por trás desse nome Almerindas?

O nome é uma homenagem a uma mulher muito importante na minha vida, chamada Almerinda, que criou quatro filhos em uma favela do Recife. Ela representava, para mim, a força e a coragem de tantas mulheres que enfrentam diariamente desafios enormes para cuidar da família. Quando pensei na empresa, quis homenagear essas mulheres trabalhadoras, moradoras de favelas e áreas rurais, que muitas vezes são invisíveis, mas sustentam a vida das comunidades. A Almerindas não é uma empresa de gênero, mas é uma empresa que olha com muita atenção para o papel da mulher no saneamento. Acreditamos que saneamento não é apenas infraestrutura. É saúde, dignidade e oportunidade. E quando conseguimos conectar cada casa ao sistema, estamos conectando também as pessoas a uma vida melhor.

Almerinda criou quatro filhos em uma favela do Recife e inspirou o nome da empresa.
Almerinda criou quatro filhos em uma favela do Recife e inspirou o nome da empresa.

Entrevista a: Rosiney Bigattão

Fotos: Arquivo Deise Coelho

Fontes: Almerindas | Trata Brasil | Mulheres sofrem mais sem saneamento

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