Eugênio Scannavino: “Água boa é remédio — e água ruim é uma doença”

Eugênio Scannavino: “Água boa é remédio — e água ruim é uma doença”

Mesmo na maior bacia hidrográfica do planeta, a realidade ainda é dura: crianças continuam morrendo por diarreia causada pela falta de saneamento básico. Em comunidades isoladas da Amazônia, o acesso à água segura ainda é um desafio cotidiano — agravado por secas extremas, por cheias e pela ausência histórica de políticas públicas estruturantes. Para o médico Eugênio Scannavino, fundador do Projeto Saúde e Alegria, essa contradição escancara uma das maiores injustiças sanitárias do país. Ao longo de décadas de atuação em territórios ribeirinhos, ele viu de perto como a água pode ser tanto fonte de vida quanto de doença — e como soluções simples, quando construídas com as comunidades, podem transformar essa realidade. Veja na entrevista.

Como acontece a integração entre atenção básica em saúde e saneamento nas comunidades amazônicas?

Quando chegamos a Santarém (PA), o maior problema de saúde estava ligado à água. Tinha surtos de diarreia infantil com muita mortalidade, principalmente na transição da época da seca para as primeiras chuvas. A água vinha muito contaminada, carregando tudo o que estava acumulado no solo. As pessoas consumiam essa água, e as crianças morriam de desidratação. Isso ainda acontece hoje em muitas comunidades. Nos locais onde atuamos, iniciamos um trabalho com a questão da água, do saneamento, do tratamento básico e da higiene, pois a falta de saneamento impacta em todos os sentidos. A maior causa de mortalidade infantil ainda hoje é a diarreia por água contaminada.

Por que isso ainda persiste em uma região com tanta água disponível?

É uma contradição enorme. A gente está na maior bacia hidrográfica do mundo, mas as pessoas morrem por estresse hídrico. Na seca, falta água de qualidade; na cheia, a água está contaminada. As comunidades ficam isoladas, sem acesso a atendimento. A água está ali, mas não está própria para consumo. Na seca, as pessoas andavam 200, 300 metros… às vezes até um quilômetro dentro do rio para buscar água um pouco melhor. Levavam essa água em baldes, a armazenavam de forma inadequada, e ela se contaminava de novo. Era um ciclo.

Que outras doenças aparecem nesse contexto?

Você tem diarreia, hepatite, parasitoses intestinais, anemia e doenças de pele. E como o acesso à saúde é difícil, essas doenças vão se agravando. São problemas que poderiam ser resolvidos na própria comunidade, com prevenção, higiene e, especialmente, com água e saneamento. Existe ali uma demanda reprimida por doenças evitáveis. 

Então estamos falando de doenças evitáveis?

Totalmente evitáveis. O sistema de saúde acaba recebendo casos que não deveriam chegar lá. É uma demanda reprimida de doenças causadas pela falta de água de qualidade e saneamento. Esse é um quadro no Brasil inteiro por falta justamente de investimento e atenção primária.

Como o Saúde e Alegria enfrenta essa realidade?

Desde o início, a gente focou em água de qualidade, falando sobre o tratamento da água, higiene de lavar as mãos, usar chinelo, como tomar banho. Orientamos desde a higiene pessoal até a higiene domiciliar, como tampar os alimentos. Distribuímos filtros e usamos hipoclorito. Mas não adianta só entregar: tem que explicar. Fizemos grandes campanhas educativas. 

“As pessoas precisam entender que água boa é um remédio — e água ruim é uma doença. Quando as comunidades entendem isso, tudo muda.”

As comunidades que aderiram ao projeto tiveram uma queda imediata nas diarreias, nas verminoses e nas anemias. Foi uma transformação muito clara. É aí que todos se envolvem: os jovens, os agentes de saúde, as mães. Também montamos rádios comunitárias e projetos que envolvem TV e circo, pois a questão do saneamento é permanente. E aí começa um efeito em cadeia: horta, alimentação melhor, cuidado com a casa e organização comunitária. A saúde passa a ser construída ali.

Quais projetos foram implantados nas comunidades?

Trouxemos as tecnologias sociais, envolvendo a participação dos moradores. Inicialmente, colocamos poços manuais, mas quebravam muito. Depois, implantamos o primeiro microssistema de água, movido a motor a diesel. Aquilo foi uma revolução: água encanada nas casas, água saindo das torneiras e água no chuveiro. A partir daí, começamos a implantar sistemas sanitários, ou seja, fossas sanitárias. Foi a primeira ação territorial completa com o programa de água, unindo filtros, tratamento e cuidando do esgoto. Recentemente, desenvolvemos os sistemas com energia solar, mais sustentáveis, com tratamento e distribuição adequada — como na Amazônia tem muito sol, aproveitamos essa energia renovável. O motor por energia solar permite levar água já filtrada e clorada para as casas. Além disso, tem uma caixa coletora de água da chuva para usos domésticos. Assim, você tem uma oferta de água muito grande e um sistema de baixo custo.

Qual a participação da comunidade?

Eles ajudam a construir, criam comissões e fazem a manutenção. A água passa a ser deles. A gente constrói, por exemplo, uma comissão da água. O Saúde e Alegria coloca os materiais, e a comunidade faz a contrapartida com a mão de obra. Eles aprendem a gerir o sistema e a fazer a manutenção. Tem o curso “Eletricistas do Sol” para eles aprenderem a lidar com a energia solar. A sustentabilidade, o engajamento, o sentimento de apropriação e o cuidado com a água são coisas que se criam com toda a comunidade. E isso desencadeia todo um processo de saúde.

E o esgoto, como entra nessa equação?

Uma solução que estamos desenvolvendo são sistemas adaptados para o esgoto: fossas isoladas que não transbordam durante a cheia do rio e nem alagam. Isso porque, quando o rio enche, as fossas alagam e o piso da comunidade vira lama. Esse momento é muito perigoso, porque a água está contaminada. Em 2024, por exemplo, tivemos uma seca extrema. A água ficou muito contaminada e as comunidades isoladas; os surtos de diarreia, de doenças de pele e a mortalidade voltaram. Foi uma calamidade o que aconteceu — e pode se repetir. 

Como evitar situações extremas?

Para reverter, usamos filtros de nanotecnologia, que retiram praticamente todas as impurezas da água. São muito simples: você coloca a água em um balde, faz um furo e ele funciona como um filtro mecânico, que pode ser retrolavado. Tem durabilidade de até cinco anos e baixo custo, entre R$ 150 e R$ 200 por família. Também temos filtros domiciliares e comunitários, que atendem áreas maiores. Estamos levando essas soluções para escolas e comunidades. São tecnologias muito inovadoras, acessíveis e eficientes, especialmente em momentos de crise, quando precisamos distribuir em larga escala. Eles já são aprovados e usados pela OMS na África, e possuem nota técnica do Ministério da Saúde atestando sua eficácia. Mas ainda são produzidos na China, então precisam ser importados. Estamos tentando garantir que esses filtros sejam, ao menos, isentos de impostos em situações de emergência. É uma demanda constante: onde levamos o filtro, outras comunidades também passam a solicitar; onde chega a água, outras também precisam.

O que falta para mudar essa realidade de forma mais ampla?

Falta prioridade. Estamos falando de um problema óbvio, simples de resolver, com tecnologia disponível, de baixo custo e alto impacto — mas que ainda depende de maior sensibilidade por parte das políticas públicas e dos governantes. Falar sobre saúde nas comunidades do Rio Amazonas é falar sobre saneamento. Não tem como separar.

Mais sobre Eugênio Scannavino

Dr. Eugenio Scannavino Netto é médico infectologista. Nascido em 1959, em São Paulo (SP), formou-se pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em 1982, com residência em Doenças Tropicais e Infectologia — um caminho que já apontava para a área em que sua atuação faria mais diferença. É fundador do Projeto Saúde e Alegria, que desde 1987 atua na Amazônia, levando saúde, educação e desenvolvimento sustentável a comunidades tradicionais. Também criou o Grupo de Trabalho Amazônico, que reúne 650 entidades de povos tradicionais da Amazônia. É autor do livro e da exposição Amazônia Brasil, que já alcançou público internacional.

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