O crescimento da reciclagem no Brasil revela dois cenários bastante distintos dentro da economia circular. Enquanto o alumínio se consolidou como um dos materiais mais valorizados da cadeia produtiva, impulsionando a renda e a inclusão social, o vidro ainda enfrenta desafios estruturais ligados à logística, ao baixo valor comercial e à distância entre os centros de coleta e as indústrias recicladoras.
A diferença fica ainda mais evidente durante grandes eventos populares, quando o volume de resíduos aumenta significativamente. No interior do Ceará, festas tradicionais como a Expocrato e a Festa do Pau da Bandeira movimentam toneladas de materiais recicláveis e ampliam o trabalho de catadores e cooperativas.
Alumínio lidera cadeia de reciclagem no país
Considerado um dos materiais mais valiosos do setor, o alumínio possui uma cadeia produtiva consolidada no Brasil. Segundo a Associação Brasileira do Alumínio (Abal), cerca de 97,3% das latas para bebidas foram recicladas em 2025, colocando o país entre os líderes mundiais no reaproveitamento do material.
Além do elevado índice de reciclagem, o alumínio apresenta vantagens econômicas e ambientais importantes. Ele pode ser reciclado infinitamente sem perda de qualidade e retorna às prateleiras em aproximadamente 60 dias. Outro diferencial é a economia energética: o alumínio reciclado consome apenas 5% da energia necessária para produzir o metal a partir da bauxita.
Para catadores e cooperativas, a latinha representa uma das principais fontes de renda da coleta seletiva. Comercializado, em média, a R$ 6,50 o quilo, o material possui alta demanda e rápida circulação no mercado.
Francisco Inocêncio, catador que atua na cidade do Crato, resume a importância econômica do alumínio para quem vive da reciclagem. “A latinha é ouro pra gente. De todo material que pegamos, ela é a que dá mais lucro”, afirma.

Vidro avança, mas logística ainda limita expansão
Embora o Brasil tenha registrado avanços importantes na reciclagem de vidro, o setor ainda enfrenta obstáculos para ampliar a destinação correta do material. Em 2025, o país atingiu o índice de 25,1% de reciclagem, superando a meta estabelecida pelo Decreto nº 11.300/2022. Das 877 mil toneladas de vidro consumidas nacionalmente, 221 mil toneladas retornaram para a indústria por meio de sistemas certificados e rastreáveis.
Apesar do crescimento, o vidro ainda possui baixo valor comercial e altos custos operacionais. O material é pesado, ocupa espaço, exige separação por cores e depende de transporte para grandes centros industriais concentrados, principalmente nas regiões Sul e Sudeste.
No Nordeste, o custo logístico se tornou um dos principais gargalos da cadeia. Em algumas regiões, o frete para transportar o vidro até as recicladoras chega a custar mais do que o valor da própria carga. No Ceará, por exemplo, o material pode ser comercializado por cerca de R$ 50 a tonelada, o equivalente a apenas R$ 0,05 por quilo para cooperativas e catadores.
Essa diferença econômica ajuda a explicar o contraste entre os índices de reciclagem do alumínio e do vidro no país.

Economia circular depende de estrutura e inclusão
Especialistas apontam que o avanço da reciclagem no Brasil depende da ampliação da logística reversa, do fortalecimento das cooperativas e da criação de políticas públicas capazes de integrar municípios e reduzir desigualdades regionais.
Além do impacto ambiental, a reciclagem também exerce papel social importante ao gerar emprego, renda e inclusão produtiva para milhares de trabalhadores da coleta seletiva.

Projetos de economia circular e gestão integrada de resíduos têm buscado fortalecer essa cadeia, especialmente em regiões afastadas dos polos industriais.
No Ceará, iniciativas como o Clube do Vidro e a atuação da Regenera Cariri apostam na união entre cooperativas, municípios e empresas para ampliar a destinação correta de resíduos sólidos. A concessionária, ligada à Aegea, também desenvolve ações de educação ambiental e apoio a catadores durante grandes eventos da região, reforçando o papel da gestão integrada de resíduos na promoção da sustentabilidade e da inclusão social.
Texto: Raiana Lucas e Ray Santa Cruz
Fotos: Assessoria Regenera Cariri
Fontes: Circula.org | Abra Vidro | InfoMoney| ABM