Dengue e os desafios da prevenção no Brasil

Dengue e os desafios da prevenção no Brasil

O verão brasileiro, com altas temperaturas e chuvas intensas, cria o cenário ideal para a proliferação do Aedes aegypti, transmissor da dengue, chikungunya e zika. Nessa época, os casos aumentam em todo o país e pressionam o sistema de saúde. Segundo o estudo Infodengue–Mosqlimate, da FGV EMAp e da Fiocruz, a temporada 2025–2026 pode registrar cerca de 1,8 milhão de casos de dengue — número elevado, embora abaixo do recorde de 2024.

Além do clima, a falta de saneamento favorece a formação de criadouros do mosquito, especialmente em áreas vulneráveis. Para entender o cenário e as novas estratégias de combate, como o uso da bactéria Wolbachia e o avanço das vacinas, o Saneamento Salva conversou com o infectologista e pesquisador da Fiocruz Julio Henrique Rosa Croda. Confira a entrevista.

Existe relação entre saneamento básico e o aumento ou redução dos casos de dengue?

Não existe uma correlação direta em relação a critérios de liberação ou controle, mas o saneamento ajuda, sim, a reduzir o número de criadouros. Principalmente quando há água potável chegando à casa do munícipe com qualidade e frequência adequadas, as pessoas entendem que não precisam armazenar água em grandes reservatórios. Isso é muito comum em comunidades carentes e em locais de difícil acesso. Quando o abastecimento é regular, diminui o armazenamento improvisado e, consequentemente, a reprodução do Aedes aegypti.

O que é a Wolbachia e como ela atua no combate à dengue?

A Wolbachia é uma bactéria presente em mais de 60% dos insetos na natureza, mas não é comum no Aedes aegypti. Em laboratório, essa bactéria é inserida nos ovos do mosquito e passa a se proliferar no seu intestino. Com isso, ela bloqueia a transmissão do vírus da dengue, da chikungunya e, eventualmente, da zika. O mosquito até pode picar uma pessoa infectada, mas não consegue transmitir o vírus a outra pessoa nem à sua descendência.

Já existem resultados concretos dessa estratégia no Brasil?

Sim. Temos dados robustos, principalmente para a dengue. No Brasil, dois grandes exemplos são Niterói (RJ) e Campo Grande (MS). Em Campo Grande, observamos uma redução de 63% dos casos de dengue em 2024, justamente no ano da pior epidemia da doença no país. Esse estudo foi publicado em dezembro de 2025 no The Lancet Regional Health – Americas.

Como foi feita a implementação da Wolbachia em Campo Grande?

A soltura começou entre 2019 e 2020 e foi até dezembro de 2023. Os mosquitos foram liberados em seis zonas da cidade, com um bom índice de introdução da bactéria. Como a Wolbachia é transmitida para a descendência, essa estratégia pode permanecer por vários anos sem necessidade de novas solturas, desde que o monitoramento indique uma frequência mínima de 60% de mosquitos infectados.

Esse monitoramento é essencial para o sucesso da estratégia?

Sem dúvida. Niterói, por exemplo, recebeu a intervenção em 2015 e, até hoje, não precisou de novas solturas. Já em cidades onde a estratégia é mais recente, como Campo Grande, é fundamental monitorar por área. Se a frequência de mosquitos com Wolbachia ficar abaixo de 60%, pode ser necessária uma nova liberação.

A Wolbachia substitui outras formas de prevenção, como o controle químico ou a vacinação?

Não. Ela é complementar. Todas as outras formas de controle precisam continuar, inclusive as novas medidas preventivas, como as vacinas. Hoje, já temos duas vacinas contra a dengue disponíveis no Brasil. A Butantan-DV é a primeira vacina produzida integralmente em território nacional.

Em alguns locais, a estratégia não funcionou como esperado. Por quê?

Em regiões muito densas, como algumas comunidades do Rio de Janeiro, houve dificuldade de acesso e não se conseguiu atingir os 60% de frequência de mosquitos infectados com Wolbachia. Nesses casos, não observamos uma redução importante da incidência da dengue.

Como o senhor avalia o controle vetorial tradicional, com inseticidas?

É um método caro, com impacto limitado. Continuamos tendo epidemias recorrentes, além do aumento da resistência aos inseticidas, como os piretroides, e do risco de exposição da população a produtos químicos. A Wolbachia, por outro lado, não tem efeito colateral conhecido e é uma estratégia muito segura do ponto de vista ambiental e de saúde pública.

Houve resistência da população à soltura dos mosquitos?

Pelo contrário. Houve um trabalho de educação muito forte antes das solturas, com a participação de escolas, crianças e comunidades locais. A aceitação foi bastante positiva justamente por conta desse diálogo prévio.

Existe estimativa de custo dessa estratégia?

Não temos essa estimativa. Isso faz parte do modelo de negócio do World Mosquito Program. Nosso foco foi avaliar o impacto da estratégia. Em Campo Grande, por exemplo, foram soltos mais de 1 milhão de mosquitos.

Além dessas estratégias inovadoras, quais cuidados básicos continuam sendo fundamentais?

Água potável de qualidade, coleta adequada de lixo e descarte correto de resíduos. Tudo isso evita a formação de criadouros do Aedes aegypti e continua sendo essencial no controle da dengue.

Mais sobre Julio Croda

O médico infectologista Julio Henrique Rosa Croda realizou a graduação pela UFBA em 2003; fez residência em infectologia pela USP em 2007 e doutorado pela USP em 2008. Atuou também na UFGD em 2009, na Fiocruz em 2015 e na UFMS em 2017.

Entrevista e texto: Chris Reis e Ray Santa Cruz
Fotos: Arquivo Pessoal Dr. Júlio Croda
Fontes: CEJAMAgência Brasil Ministério da Saúde Medicina SA

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